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Daylight

DAYLIGHT… BEM, MEMÓRIA AFETIVA É UMA DAQUELAS COISAS QUE VOCÊ SIMPLESMENTE TEM, é lindo, é nostálgico, mas que não pode ser tocada nunca para não causar embaraços em público.


Imagine como deve ser apresentar um longa-metragem da sua infância para a sua namorada (0) e então, quando o filme acaba, ter que lidar com aquele olhar de “por que você me fez assistir isso? Você não me ama?”, ou coisas piores. Já vi casal terminando por conta de um programa mal-sucedido. É um assunto sério, ué.

Felizmente não tive que dividir com ninguém o meu momento de frustração após relembrar Daylight, o filme norte-americano de 1996, época em que Sylvester Stallone ainda era sinônimo de lucro no cinema. Pelo menos valeu para lembrar de como as coisas eram divertidas naquele ano. Eu tinha um caderno para anotar todos os filmes que assistia no cinema. Mantive ele até 2005, quando simplesmente desapareceu da minha casa. Talvez seja uma coisa tipicamente canceriana, essa necessidade de anotar e registrar (e guardar) tudo, mas sinto que seria muito curioso se encontrasse esse caderno de novo.  Mas voltando ao tema principal, para um garoto de 11 anos qualquer coisa seria sensacional e Daylight não me decepcionou com suas cenas de ação, tensão e aquela coisa do mocinho ter a sua mocinha no final.

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Hoje, tantos anos depois da última vez que vi o longa dirigido por Rob Cohen (Triplo X e Velozes e Furiosos), as sensações são diferentes. Percebo uma introdução eficiente e muito bem amarrada, quase que funcionando perfeitamente como um curta-metragem sombrio que reserva um destino cruel para seus personagens. Tecnicamente, arrisco dizer que seja o melhor momento do filme. O espectador é apresentado para todos os personagens em situações comuns, todos indo para o mesmo túnel. Confesso que até cheguei a me empolgar e achei que era um daquelas produções guilty pleasures que você descobre que é boa, mas não foi o caso.

Minha única outra alegria com o previsível Daylight foi descobrir a presença de Viggo Mortensen (Marcas da Violência e Senhores do Crime) interpretando um ricaço arrogante e com pretensões de ser o grande salvador do dia. Como geralmente acontece com quem fala demais ou é desprovido de humildade, seu destino é breve e cruel. O restante do elenco te faz reclinar na cadeira, balbuciar para a televisão e pensar em como é engraçado olhar para a boca torta do Stallone, que até tenta convencer, mas simplesmente deveria fazer umas aulas com o Jean Claude Van Damme para aprender como é que um ator de ação deve se comportar na tela.

Para um filme que conta como é um homem foi parar dentro de um túnel soterrado para resgatar um pequeno grupo de sobreviventes, a ausência de tensão é preocupante. Em momento algum você se envolve naquela história ao ponto de ficar angustiado com o risco constante de tudo desabar e acabar com tudo prematuramente. Convenhamos que é essencial para produções claustrofóbicas deixas o espectador roendo as unhas, quase incapaz de respirar. Como exemplo posso lembrar facilmente de Quarto do Pânico, de David Fincher; e Enterrado Vivo, de Rodrigo Cortés. Dois filmes que provavelmente podem ter aprendido lições valiosas com Daylight sobre o que não fazer para criar atmosferas perigosas.

Divertido como filme de ação e indicado especialmente para os fãs de Stallone, Daylight é entretenimento raso e que é quase completamente esquecível. Porém, está longe de ser uma verdadeira porcaria, justamente por conta de sua muito bem feita introdução, participação especial de Mortensen, e, claro, Sylvester Stallone ainda em alta.

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