Aventura Críticas de filmes Sci-Fi

Crítica: De Volta Para o Futuro – Parte II (1989)

(Aviso: Este texto contém mais spoilers que o Almanaque dos Esportes.)

O HOJE CLÁSSICO DE VOLTA PARA O FUTURO, ANTES DE SER LANÇADO, era um mistério em termos comerciais e ninguém sabia se seria um sucesso fenomenal ou um fracasso retumbante. A cena final – em que um afobado Doc Brown surge com roupas futuristas e um DeLorean voador movido a lixo, bota Marty e Jennifer lá dentro e diz que algo precisa ser feito em relação aos filhos do casal, que ainda nem nasceram – era pra ser apenas uma piada e encerrar o filme com um efeito especial bacana (o carro voando em direção à tela) e uma frase de efeito (“Roads? Where we’re going, we don’t need… roads”). Mas o filme foi um grande sucesso, a Universal pediu mais e, de simples brincadeira, a cena virou gancho obrigatório para a sequência. E uma sequência que prometia mais aventura, mais efeitos especiais e mais pericipécias temporais, porque pressupunha uma ambientação no futuro.

hillvalley2015

De Volta Para o Futuro – Parte II tem início com o doutor Emmett Brown (Christopher Lloyd) aliciando Marty McFly (Michael J. Fox) para mais uma missão temporal: evitar que os filhos de Marty virem criminosos e destruam para sempre uma família que já tinha “Loser” como nome do meio. Cenário: a boa e velha cidadezinha de Hill Valley, já retratada em duas épocas (1955 e 1985) no primeiro filme. A data: o então remoto ano de 2015.

O século 21 que o cinema costumava imaginar nos anos 80 não era lá dos mais otimistas. É só lembrar da distopia noir de Blade Runner ou da Terra assolada pelas máquinas em O Exterminador do Futuro. Robert Zemeckis e sua trupe (incluindo o co-roteirista Bob Gale e o designer de produção Rick Carter) optaram por seguir um caminho bem diferente em De Volta Para o Futuro – Parte II: apresentar um futuro próspero, colorido e sem nenhum compromisso com o plausível. Sai o detalhismo kubrickiano de 2001, entram as roupas improváveis e a tecnologia absurda de Os Jetsons.

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Optar pela galhofa deixou os criadores livres para viajarem na maionese. A Hill Valley do futuro transpira tecnologia, com robôs levando cães para passear, tênis que se amarram sozinhos, minipizzas que viram pizzas gigantes em cinco segundos e, como não podia faltar, carros voadores (embora nem esses, que são o sonho de qualquer motorista que precise enfrentar um trânsito infernal pra chegar ao trabalho, escapem de engarrafamentos aéreos). É também repleta de uma moda questionável: jovens andam com os bolsos pra fora das calças, crianças se vestem como pequenos palhaços, homens de negócios usam duas gravatas simultaneamente.

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A ironia é que, enquanto muitas dessas “previsões” nada científicas se provaram furadas (a Mattel tá nos devendo um Hoverboard até hoje), várias outras acabaram se mostrando premonitórias. Videogame que não se joga com as mãos? Olha o Kinect aí. Videoconferência na sala de casa? Eu uso Skype quase todo dia. Infindáveis sequências de filmes em três dimensões? Se não temos Tubarão 19 sendo exibido no Holomax, Terror na Água 3D passou outro dia mesmo num cinema perto de você. Até no saudosismo pelos anos 80 (um certo “Café 80’s” é o point da molecada hillvallense) o filme acerta.

Mas se Zemeckis e companhia conseguiram com sucesso concretizar sua visão divertida do futuro, lançando mão de uma penca de efeitos visuais inovadores, dar continuidade ao final-que-era-pra-ser-só-uma-piada do primeiro filme criou outro problema: Jennifer, namorada de Marty, também deveria estar presente. Acontece que Claudia Wells, a simpática atriz que interpretava a personagem, não pôde participar da sequência por motivos pessoais. (Esse acabaria sendo o único papel de destaque de Wells, que hoje é dona de uma loja de roupas.) Para substituí-la, recrutaram Elizabeth Shue, que já havia sido a namoradinha de outro adolescente famoso da Sessão da Tarde, o Daniel-san de Karatê Kid. Mas apesar do rostinho bonito, Shue faz uma Jennifer bem mais caricatural, investindo em caras e bocas e tentativas de fazer comédia que não apenas não funcionam, como descaracterizam a personagem. Além disso, Jennifer ainda sofre com o próprio roteiro, que não sabe o que fazer com ela e a deixa dormindo praticamente o filme todo – ela só acordaria nos últimos minutos de De Volta Para o Futuro – Parte III.

jennifer1Num minuto, Claudia Wells…

jennifer2No outro, Elizabeth Shue.

Outro que deixou o elenco foi Crispin Glover, que deu ataque de estrelismo e exigiu um salário exorbitante demais para um papel secundário. Nesta parte II, George McFly é vivido pelo desconhecido Jeffrey Weissman, mas sua participação é mínima e mais lembra o trabalho de um dublê – George aparece de longe, de costas e até flutuando de cabeça pra baixo (!), mas nunca com o rosto em close.

O resto da patota, no entanto, não só está de volta como trabalha dobrado: Lea Thompson vive Lorraine em várias versões diferentes, incluindo vovozinha e coroa siliconada; Tom Wilson contracena com si mesmo em diversas cenas e interpreta desde a versão “velhote mal-humorado” de Biff até o pitboy de voz esganiçada Griff; e Michael J. Fox dá uma de Eddie Murphy e vive até mesmo sua própria filha, com direito a peruca loira e voz fina repetindo um dos bordões da trilogia (“Mom, is that you?”). É fácil admirar efeitos especiais como os hoverboards e os aerocarros, mas não podemos nos esquecer do ótimo trabalho de maquiagem e da complexidade de se filmar cenas como o jantar da família McFly, que tem três Michael J. Foxes interagindo um com o outro e requeriu o uso de um avançado sistema de câmeras chamado VistaGlide.

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Ainda sobre o elenco, vale destacar mais duas pontas curiosas. Enquanto no primeiro filme tínhamos Huey Lewis fazendo participação especial, o músico da vez é Flea, baixista do Red Hot Chili Peppers, que interpreta um ardiloso colega de trabalho de Marty. E De Volta Para o Futuro II ainda conta com ninguém menos que Elijah Wood, fazendo sua estréia no cinema como o molequinho que reclama do videogame jurássico (“Tem que usar as mãos?!”).

flea

elijahwood

Toda essa sequência ambientada em 2015 é divertida e flui muito bem, apesar de todos os exageros. Mas é quando um certo livrinho entre em cena que De Volta Para o Futuro II realmente diz a que veio e se mostra uma ficção científica que explora o tema de viagens temporais de uma forma complexa, mas nunca complicada demais.

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O tal livrinho, claro, é o Almanaque dos Esportes, um compêndio de estatísticas esportivas cobrindo meio século (de 1950 a 2000) e trocentos esportes, de futebol e hipismo até dardos e rodeio. (Eu sempre achei o livro muito fino pra tanta informação. Imagina o tamanho da fonte.) Marty tem a idéia que qualquer um de nós teria se pusesse as mãos em uma máquina do tempo: fazer uma graninha no presente usando informações privilegiadas obtidas no futuro. Doc Brown dá-lhe um sermão e ele joga o almanaque fora, mas o velho Biff, ouvindo tudo, acha a idéia porreta, dá um migué no DeLorean e entrega o livro para seu eu de 60 anos antes, criando uma realidade paralela e sombria em que Biff Tannen é o Eike Batista, o Donald Trump e o Don Corleone da cidade de Hill Valley.

É engraçado que Zemeckis e Gale tenham evitado a batida visão pessimista do futuro, mas transformado o próprio presente num inferno. Quando Marty e Doc Brown retornam a 1985, a Hill Valley que encontram é bem diferente: gangues de motoqueiros tocam o terror, cassinos e puteiros são mato, o diretor da escola anda com espingarda e munição pendurada no corpo, Biff casou-se com a mãe de Marty e seu pai, George McFly, está morto. “Welcolme to Hell Valley”, diz agora a velha placa de boas-vindas da cidade, devidamente pichada de acordo com a situação.

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O desespero e a confusão de Marty andando pela cidade lembram muito A Felicidade Não Se Compra, de Frank Capra, em que o personagem de James Stewart também se via numa linha do tempo alternativa onde ele nunca havia existido e todas as pessoas que ele conhecia tinham vidas de merda. A Hill Valley de 2015 pode ser calcada em Os Jetsons, mas a do 1985 alternativo concorre pau a pau com a Detroit violenta de Robocop. Sem um policial robô sequer pra dar uma força.

Assim que Marty descobre que a origem de toda aquela confusão reside no prosaico Almanaque dos Esportes e precisa voltar ao passado mais uma vez para evitar a criação daquele presente desgracento, o filme dá outra guinada genial e revisita o mesmo sábado, 12 de novembro de 1955, que havia testemunhado tantos acontecimentos na primeira parte: o baile Encanto Submarino, o improvável nocaute de Biff pelas mãos de George McFly, o primeiro beijo de George e Lorraine, o raio que atingiu a torre do relógio e mandou Marty de volta para o futuro. Agora os personagens precisam não apenas recuperar o almanaque das mãos de Biff, mas também evitar que eles esbarrem em suas contrapartes do primeiro filme e implodam o continuum espaço-tempo, a continuidade da série e a cabeça do espectador.

Cenas inteiras do primeiro filme são mostradas a partir de novos ângulos e geram interações sempre engenhosas e divertidas: Marty vê a si mesmo no palco tocando “Johnny B. Goode”, Doc Brown dá conselhos técnicos a seu eu trinta anos mais moço, Biff agora tem dois “Calvin Kleins” que quer encher de porrada. Tudo é feito com maestria, mesclando imagens tiradas diretamente de De Volta Para o Futuro (especialmente aquelas que mostram o rosto de Crispin Glover) e cenas reencenadas nos mínimos detalhes. É tão bem feito que os desavisados podem até achar que as partes I e II foram filmadas juntas, quando na verdade os dois filmes têm 4 anos de diferença e todos os sets precisaram ser reconstruídos.

carta

A caçada ao almanaque vermelho culmina em um dos meus momentos favoritos em toda a trilogia: o DeLorean, voando em meio a uma tempestade com Doc Brown no volante, é atingido por um raio e desaparece. Coisa de um minuto depois, quando Marty ainda está com cara de bobo tentando entender o que se passou, um funcionário da Western Union aparece com uma encomenda para o incrédulo McFly: uma carta do Doutor, datada do fim do século 19, com instruções explícitas para que fosse entregue a Marty naquele exato momento, naquele exato local. Se o primeiro De Volta Para o Futuro transformou Calvin Klein em nome de personagem e a marca DeLorean em ícone, a maior publicidade desta parte II deve ser mesmo para a Western Union, capaz de guardar um envelope por várias gerações de funcionários e entregá-la com pontualidade britânica setenta anos depois. E pensar que o mesmo Zemeckis ainda dirigiria Náufrago, dando à FedEx um destaque ainda maior. Taí um cara com fé nos correios.

Nestes tempos em que photoshopagens envolvendo a suposta data em que Marty viaja ao futuro enganam os incautos entra ano, sai ano, De Volta Para o Futuro – Parte II é um filme que definitivamente merece ser revisto. E antes de rir dos carros voadores e das previsões furadas, pense por um momento: e se nós estivermos vivendo um 2013 alternativo?

To be concluded…

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Crítica: De Volta Para o Futuro

Título original: Back to the Future Part II
Direção: Robert Zemeckis
Produção: Neil Canton e Bob Gale
Roteiro: Robert Zemeckis e Bob Gale
Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Thomas F. Wilson, Lea Thompson, Elizabeth Shue
Lançamento: 1989
Nota:[cinco]

Lucas Paio

Lucas Paio é mineiro de Belo Horizonte, passou quatro anos na China e desde 2013 vive em Berlim, onde passa o tempo livre no cinema (os poucos que exibem filmes sem dublagem em alemão) e conhecendo a cerveja, digo, a cultura local.