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Depois da Terra

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A MAIOR PARTE DA CRÍTICA NORTE-AMERICANA FOI ÓBVIA E CRUCIFICOU DEPOIS DA TERRA, o projeto mais recente de M. Night Shyamalan. O filme foi injustamente classificado como a “bomba da temporada”, e a rejeição é tanta que a arrecadação durante o final de semana de estreia foi muito abaixo da expectativa do estúdio. Nem mesmo a presença do astro Will Smith foi o suficiente para garantir a bilheteria e tentar salvar o nome queimado do diretor indiano. É uma pena que exista essa perseguição com a obra Shyamalan, pois a imprensa fica cega com ódio no coração e acaba julgando não o conteúdo da aventura sci-fi, e sim o nome dos responsáveis por ela.

Shyamalan já havia deixado claro que os humanos são uns babacas em Fim dos Tempos, quando transformou as plantas em psicopatas sádicos. Talvez seja correto supor que Depois da Terra é uma espécie “continuação” do filme, pois a Terra se tornou um local perigoso demais para a vida humana e os personagens vivem num planeta distante e pacífico. Durante uma viagem espacial a bordo da “Millennium Ray”, pai e filho (Jaden Smith) que não se relacionam muito bem, sofrem um acidente e acabam caindo na Terra. Todos os tripulantes batem as botas, e o personagem de Smith pai tem uma fratura horrorosa no fêmur, e toda a esperança de sobrevivência (e resgate) depende do temperamental Smith filho, que interpreta um pentelho aborrecente chamado Kitai.

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Inspirado em uma história criada por Will Smith, o roteiro de Shyamalan e Gary Whitta (O Livro de Eli) não oferece muita profundidade e privilegia a ação, deixando de lado o desenvolvimento do conflito pai-filho da obra. O objetivo do personagem é encontrar a outra parte da nave para conseguir transmitir um sinal de pedido de resgate, enquanto tenta escapar do monstro alienígena cego que persegue suas vítimas através do cheiro exalado quando elas sentem medo (…). Durante o desenvolvimento da trama, vamos descobrindo os motivos que fizeram Kitai crescer como um jovem temperamental e assustado, mas o roteiro se esforça pouco para potencializar o efeito dramático da revelação, que por sua vez, é também o motivo que causa o imenso abismo entre pai e filho. O desejo do filho em se tornar o pai, de ser motivo de orgulho, por mais clichê que seja, é apresentado de maneira simples, sem muito cuidado, mas sem deixar de ser satisfatório. A “evolução” óbvia de Kitai é natural depois que suas aventuras o ajudam a superar seus traumas. Afinal de contas filho de peixe, peixinho é.

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Na verdade, é difícil dizer se o roteiro que é fraco e clichê ou se a culpa está na ausência de talento do jovem Jaden Smith. A atuação do jovem ator não convence, não sensibiliza, e é o principal problema de Depois da Terra. Chega a ser irritante a tentativa de Will Smith tentar transformar o filho no seu novo eu e dominar Hollywood num futuro (apocalíptico) com Bad Boys 4 (com direção do filho de Michael Bay) ou Independence Day 7 (com direção do próprio Will Smith). Curioso é que Smith pai está bem na pele do frígido Cypher Raige. Imagine uma versão de Tommy Lee Jones, em Homens de Preto, sem o humor involuntário e você terá uma ideia da seriedade da coisa.

Alguns críticos norte-americanos com tendências conspiratórias enxergaram Depois da Terra como uma apologia à Cientologia, aquela religião maluca do Tom Cruise, John Travolta, dentre outros nomes famosos. Aparentemente, alguns dos diálogos das cenas em que Smith pai conversa com o filho possuem ensinamentos do livro Dianética, a “bíblia” da Cientologia. Se você forçar a barra, pode até conseguir analisar a obra por esse olhar, mas aí deverá ficar ciente de que ignorando o fato do roteiro apresentar o personagem de Smith pai como um militar sério, chato pra caramba, quadrado e metido a dar ordens e ser prontamente obedecido. Provavelmente é do signo de virgem. Ele conversa de maneira autoritária, e ao mesmo tempo tenta ser o “Mestre Yoda” do filho durante sua jornada. O discurso pode ser ambíguo sim, mas enxergar isso como um “defeito” soa como uma tentativa de inventar argumentos para criticar ainda mais o trabalho de Shyamalan.

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O compositor James Newton Howard demonstra sintonia com a trama de Shyamalan e faz um trabalho de qualidade. Não chega a superar as músicas de O Sexto Sentido e Sinais, mas é o suficiente para a atmosfera de Depois da Terra. Em determinados momentos, como a cena em que Kitai encontra a cauda da “Millennium Ray”, fica explícita a influência das trilhas de Hans Zimmer. Confesso que cheguei a ficar na dúvida sobre quem estava de fato assinando a trilha sonora do filme.

Vale a lembrança comparativa com o recente Oblivion, de Joseph Kosinski. A produção estrelada por Tom Cruise é muito superior tecnicamente (e também por incluir Led Zeppelin na trilha), mas perde por ter pretensiosa demais e não ter tanta graça assim. Mesmo sendo um filme de M. Night Shyamalan, Depois da Terra mantém os pés no chão e evita se deixar levar pelo ego ferido de seu diretor. Curioso é que os dois filmes tem elementos parecidos, como o fato dos protagonistas atuarem boa parte das vezes apenas com o ambiente natural dos locais em que a ação acontece.

Quem aprendeu a odiar M. Night Shyamalan com o passar dos anos dificilmente conseguirá reconhecer as qualidades de Depois da Terra. O pré-conceito cega e gera impaciência no espectador que mais do que reclamar da qualidade dos filmes, critica especialmente o legado do diretor. É como se Shyamalan tivesse a obrigação de ser o melhor cineasta da história, que cada filme precisasse ser melhor que o anterior, e que a reviravolta de O Sexto Sentido precise se repetir inúmeras vezes. De fato, seus filmes foram ficando piores com o passar dos anos, mas daí a querer massacrar injustamente qualquer coisa que ele faça é uma besteira completa. Cinema é arte, mas também é um produto. Quem for assistir Depois da Terra sem raiva poderá descobrir um sci-fi boa o suficiente para garantir a diversão do final de semana. Nada espetacular, nada inédito, nada essencial, apenas um bom filme de aventura com a velha história de superação e amadurecimento de um jovem.

depois da terra pôster

ps: se por ventura, vocês lerem “Depois da Vida” no lugar de “Depois da Terra” é porque sou uma pessoa disléxica que cismou com “vida” no lugar da “terra”.
ps2: sei que dislexia pode ser uma desculpa para burrice, mas vocês não precisam comentar isso.
ps3: Para os interessados em saber mais sobre o resultado da bilheteria desastrosa de Depois da Terra, recomendo a leitura deste artigo da jornalista Ana Maria Baiana.

Nota:[tresemeia]

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