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Depois de Horas

PAUL HACKETT (GRIFFIN DUNNE) PRECISA DE MAIS EMOÇÃO NA VIDA. Ele não parece particularmente insatisfeito, mas seus dias se resumem ao trabalho como processador de palavras e a idas a cafés solitários, acompanhado apenas por um livro gasto de Henry Miller.

Por isso, quando o acaso lhe coloca na mesa em frente à de Marcy (Rosanna Arquette) em uma cafeteria, ele faz limonadas. Ela lhe dá o telefone da casa da amiga, onde vai dormir, e logo Paul está ligando para a bela menina loira.

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Paul deveria ter percebido que aquela não era a sua noite assim que pegou o taxi com o motorista mais psicopata de Manhattan (e nem era Travis Bickle!) e todo o seu dinheiro voou pela janela. Logo, ele se vê no loft de uma artista plástica e dali em uma sucessão de eventos bizarros que o fazem ser caçado pelos moradores vigilantes do Soho.

Pode não parecer, mas Depois de Horas é um filme de Martin Scorsese. Ele, que adora aparecer em cena, dá as caras na boate em que Paul vai parar, quase como quem diz, lá pela metade do filme, “ei, sou eu mesmo, fique por aí”. Quando já tinha feito Touro IndomávelTaxi Driver e Caminhos Perigosos, o diretor se voltou para uma história em que – pasme – apenas um tiro é disparado.

A impressão que dá é que Scorsese saiu de seu elemento – aquele que resulta em muitos corpos e sangue. No entanto, a violência em seus filmes age como um catalisador para levar os personagens a seus destinos, muitos deles trágicos. Claro que ele não aposentaria as armas, como provaram Os Bons Companheiros e Cassino, pouco tempo depois. No entanto, assim como Alice havia mostrado, mais de 10 anos antes, Scorsese é, pura e simplesmente, um grande contador de histórias.

Depois de Horas leva o pobre Paul, um sujeito comum sem grandes ambições de matar o presidente ou ser o rei dos cassinos de Las Vegas, a uma madrugada completamente fora de sua previsível rotina. A catálise não passa despercebida. Por ser tão pouco extraordinário, como eu e você, embarcamos com o personagem em uma jornada, que se origina em sua zona de conforto, a um destino não muito longe: o outro lado da cidade.

É o clima cotidiano do filme que o faz plausível e imediatamente intrigante. Não demora muito e o espectador se identifica com a vida e a solidão de Paul, compreende seus motivos pra ir atrás de Marcy, e quer saber que fim terá sua saga louca. Os muitos closes só têm a contribuir para aproximá-lo de quem assiste.

Depois de Horas é uma comédia de erros que, ao longo do caminho, constrói no espectador a sensação de que tudo se dirige para uma tragédia. Paul parece estar em uma onda de azar sem fim, encontrando mulheres loucas, se envolvendo em crimes e cada vez mais longe de casa. A incerteza de seu destino fica clara, e é ela, num desenvolvimento narrativo muito bem orquestrado, que engaja o espectador.

Como boa parte da obra do diretor, essa é uma crônica nova-iorquina. O que garante a Depois de Horas um lugar de destaque na tão concisa filmografia de Martin Scorsese é a sua habilidade para desvendar como nunca antes uma Nova York que, em meio a assaltos em plena madrugada, cafeterias 24 horas, clubes noturnos com as mais estranhas festas temáticas e fumaça que sai dos bueiros, é um mundo inteiro, habitado por personagens tão fantásticos quanto reais, que só querem sobreviver a mais uma noite. Exatamente como eu e você.

Título original: After Hours
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Joseph Minion
Elenco: Griffin Dunne, Rosanna Arquette, Linda Fiorentino, Teri Garr, John Heard, Catherine O’Hara, Will Patton
Lançamento: 1985
Nota:[quatro]

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