Crítica: Divergente, de Neil Burger
Aventura Críticas de filmes

Divergente


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A MINHA GERAÇÃO CRESCEU DESCOBRINDO OS LIVROS E OS FILMES DA SÉRIE HARRY POTTER. Desde então, muitas outras franquias literárias recentes migraram para o cinema. Algumas fracassaram miseravelmente, outras conseguiram números impressionantes. Não importa se Crepúsculo é uma porcaria para a maioria de nós, já que existem “crepusculetes” militantes decididas a defender a “obra-prima” do cinema. Geralmente, certos filmes focam num target bem específico e se esforçam para abranger outros públicos. Crepúsculo é um fenômeno, ok, e conseguiu seu sucesso independente de ser ruim. Jogos Vorazes é mais adulto que o romance do vampiro, e resultou em filmes melhores. E agora, o mais recente livro a invadir as telas de cinema, Divergente (Divergent, 2014) é lançado dividindo opiniões.

Talvez seja uma resistância natural pela idade. Com quase 30 anos nas costas, não é fácil mais engolir “homenagens” descaradas aos livros/filmes que nos são estimados. Logo de cara, Divergente já expõe a influência de Harry Potter ao apresentar as cinco “casas” que guiam Divergente: Candor (o lar da honestidade), Abnegation (lar dos altruístas), Dauntless (os corajosos), Amity (os pacíficos), e Erudite (os inteligentes). Para escancarar ainda mais a referência, existe até um substituto à altura para o Chapéu Seletor. Na sequência, após Crepúsculo, qualquer vestígio de um relacionamento amoroso adolescente complicado causa arrepios na espinha dos cinéfilos. Piora quando não parece existir muita química entre o casal principal. E para coroar, a trama se passa num futuro distópico, assim como acontece em Jogos Vorazes. Com todas essas informações na mesa, fica complicado abrir o coração e se entregar para Divergente.

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A trama apresenta essa menininha linda, que depois de chegar a uma certa idade (Hello again, Harry Potter) precisa decidir se continuará vivendo na sua casa de origem ou tentará viver ao lado de outras pessoas. O problema é que a Beatrice (Shailene Woodley, de Os Descendentes) é uma divergente. Ou seja, ela possui características para se dar bem em todas as casas, mas o governo costuma considerar os divergentes como grandes ameaças e gosta de matar todos para evitar problemas. Depois de optar pela casa Dauntless, a jovem logo se apaixona por 4 (Theo James) e descobre uma vida diferente de tudo que vivera anteriormente. Durante seu treinamento para ser aprovada de verdade na casa, Beatrice descobre que existe um plano perigoso de uma das casas para dar um golpe de estado e instaurar um governo ditatorial.

Woodley é a nova “musa” da vez, aparentemente. Além de estrelar Divergente, ela também será vista em breve na adaptação do bestseller A Culpa é das Estrelas, e provavelmente estará no elenco de O Espetacular Homem-Aranha 3, como Mary Jane Watson. Nada contra Woodley, que possui muito carisma e nos encanta justamente pelo jeitinho tímido. Ela é aquele tipo de atriz que você nem percebe direito, até se pegar totalmente apaixonado. Se existe algo bom em Divergente, sem dúvida, é ela. Ainda que seja obrigada a contracenar com um sujeito que claramente só assinou contrato pela sua beleza física, e divida poucas cenas com uma Kate Winslet pouco inspirada, Woodley faz a diferença e consegue dar um pouco de vida para as cenas de sua personagem.

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Como bem apontou o crítico Marcelo Hessel (Omelete), o roteiro também trabalha com a ideia de ser jovem e lidar com situações de hierarquia. Onde é que entra a nossa obediência? Em determinado momento da obra, os personagens sofrem uma lavagem cerebral e apenas nossa querida heroína escapa de ser apenas mais uma na fila. O que poderia render um aprofundamento maior do roteiro, se torna apenas um mero pano de fundo para uma fuga sem pé nem cabeça. Como tudo mais que acontece em Divergente, o conflito é limpinho demais. Existe um excesso de assepsia prejudicial para o desenvolvimento da obra. Um pouco de sujeira nunca matou ninguém, sabem…

A direção de Neil Burger (O Ilusionista) é um dos principais defeitos de Divergente. A obra carece de ritmo. Quando não está agindo como um remake de Harry Potter ou Jogos Vorazes, o filme se arrasta. Culpem o núcleo principal do elenco, a montagem, ou mesmo a ausência de uma trilha sonora marcante (ok, tem Snow Patrol com “I Wont Let You Go”). Fica a esperança para o segundo filme consertar os defeitos do original, coisa que aconteceu de maneira surpreendente em Jogos Vorazes: Em Chamas.

Harry Potter sempre terá o seu lugar garantido no topo das adaptações de obras literárias mais recentes (O Senhor dos Anéis foi lançado no período da Segunda Guerra). Pode ser resistância pela idade, podem chamar assim, mas vejo que muitos amigos da crítica também criam certos receios antes mesmo de assistir a filmes assim. Acredito que seja consequência do efeito Crepúsculo, que ainda influencia muito pré-conceito. Divergente não é um filme ruim. É fraco, por todos os motivos ditos logo acima, e provavelmente entediará as pessoas mais calejadas, mas funciona como um bom objeto de entretenimento, desde que a sua intenção seja apenas gastar seu suado dinheirinho para dar uns beijos naquela gatinha (ou gatinho) esperto. Vai saber.

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Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.