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Senna

Eu nunca fui um fã da alta velocidade. Não gosto de corridas e nem mesmo me interessei em tirar a minha carteira de habilitação para encarar o trânsito belo-horizontino. Quando o Ayrton Senna morreu naquele 1 de abril de 1994, por coincidência eu estava acompanhando a corrida ao lado do meu pai (que assim como grande parte dos brasileiros, tinha o piloto como um grande ídolo e herói nacional) e foi impossível não se sensibilizar com a perda. O documentário Senna, que entrou em cartaz nos cinemas nessa última sexta-feira, conta grande parte da trajetória do brasileiro que marcou a história da Fórmula 1 em imagens particulares da família de Ayrton e de registros de Bernie Ecclestone (homem forte na F-1).

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Dirigido pelo inglês Asif Kapadia, o documentário é um presente para os fãs do piloto e para toda uma geração que não teve a oportunidade de entender o por quê de Ayrton Senna ser considerado até hoje como um dos maiores nomes do esporte brasileiro e também ser reconhecido como um dos grandes talentos das pistas de corrida de todos os tempos. Senna mostra o lado perfeccionista e introspectivo do piloto e contém cenas de diversas corridas memoráveis, como a primeira vitória no GP de Interlagos e a polêmica disputa em Monte Carlo em 1984, quando a corrida foi encerrada por conta da chuva.

Apesar de não focar o lado pessoal de Ayrton Senna, Kapadia não evitou incluir pequenas participações de suas duas namoradas mais famosas: a apresentadora Xuxa e Adriane Galisteu. Para algumas pessoas, a sequência em que Ayrton fica lado a lado com a rainha dos baixinhos pode ser altamente constrangedora. Os dois estavam trocando indiretas românticas no meio do programa infantil e aquilo foi, no mínimo, muito engraçado. O falecido Bussunda também faz uma pontinha em uma entrevista para o Casseta e Planeta e o resultado foi a cena engraçadinha de Senna. Porém se engana quem acha que a graça fica apenas nesse rápido momento. As ironias e troca de faíscas do piloto com seu ex-parceiro de equipe Alain Prost e com as decisões de Jean-Marie Ballestre (que comandava a F-1 na época) rendem bons momentos e escancaram o circo da Fórmula 1, recheado de interesses, dinheiro e muito jogo político.

As disputas de Senna com Prost são o ponto alto da narrativa, que com sua trilha sonora empolgante quase nos dá a chance de sentir a adrenalina da disputa de um grande prêmio de F-1. Prost acaba ganhando o status de “vilão” do documentário. Tudo por conta do excelente trabalho de montagem de Chris King e Gregers Sall, que modificaram a estrutura básica dos documentários e preferiram usar e abusar das milhares de horas de entrevistas, treinos, reuniões, vídeos familiares, e claro, das corridas, para fortalecer o conceito de velocidade e agilidade do piloto. Mas o filme deixa um rombo no roteiro quando os dois pilotos aparecem sorrindo lado a lado numa entrevista e quando Prost surge emocionado no enterro do seu principal adversário nas pistas. Em momento algum é explicado se os dois fizeram as pazes ou estavam apenas exercendo um pouco mais de tolerância.

Senna acerta a mão e consegue emocionar até mesmo aqueles que não gostam de corridas. A história de Ayrton Senna é um exemplo de vida e Kapadia construiu um belo retrato do maior e mais ousado piloto que já existiu na história da Fórmula 1. Merece quatro caipirinhas no nosso Buteco!

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