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Crítica: Dr. Estranho (2016)

poster-dr-estranhoASSIM COMO ACONTECEU COM HOMEM DE FERRO e Guardiões da Galáxia, o principal trunfo de Dr. Estranho (Dr. Strange, 2016) é ser uma aposta da Marvel num personagem desconhecido do grande público. Quando não existe pressão para atender as expectativas do público das HQ’s, a Marvel acerta em cheio. Méritos também para o cineasta Scott Derrickson, acostumado a produzir longas de terror e se aventurando pela primeira vez nesse imenso universo das adaptações de super-heróis.

O longa apresenta a história de um médico arrogante chamado Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) e na sua tentativa de se recuperar de um grave acidente de carro. Depois de esgotar as possibilidades com a medicina oriental, ele vai parar na casa do caralho para encontrar a sua cura e acaba descobrindo muito mais do que gostaria.

As produções da Marvel geralmente pecam pela sua falta de identidade, o que deixa a desconfortável impressão de que tudo não passa de uma enorme série de televisão em que os diretores ficam de mãos atadas e impedidos de colocar as suas assinaturas nos projetos. Dr. Estranho não escapa dessa triste sina, mas pelo menos injeta novo fôlego no universo da Marvel com uma trama cheia de efeitos visuais [nota: não conferi a versão em 3D, mas fica a minha recomendação para tentarem assistir ao filme em IMAX 3D e ficarem pobres, mas felizes no processo] que realmente enchem os olhos dos cinéfilos de plantão. Principalmente por conta da inevitável comparação com A Origem, de Christopher Nolan, por conta das cenas em que os personagens bancam os arquitetos malucos e deixam os prédios de cabeça pra baixo num caos completo.

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Derrickson, cujo melhor momento da carreira havia sido no terror A Entidade (2012), demonstra toda a sua qualidade e visão ao não deixar o espectador se confundir com a quantidade de informação em cena. O cineasta soube escolher bem os ângulos da câmera nas excelentes sequências de ação presentes ao longo do filme. Acredito que talvez seja um dos melhores diretores que já trabalharam nesse universo da Marvel. Ou talvez seja apenas eu contaminado pela empolgação. Não sei.

É preciso apontar também o amadurecimento do humor na Marvel. Depois de focar num público adolescente com piadinhas idiotas e num tom mais “feliz”, o estúdio passou a trabalhar com perspectivas mais sombrias e sérias, com exceções no meio do caminho, como Guardiões da Galáxia. Prova disso são os dois longas mais recentes do Capitão América, Soldado Invernal e Guerra Civil, que conseguiram mostrar que o primeiro vingador não é um chato de galocha e elevaram o nível dos filmes para um outro patamar. Agora não se trata apenas de atingir adolescentes cheios de espinhas, mas de gente que gosta de bons filmes de ação. Ainda é triste ver que todas as produções da Marvel carecem de senso estético para se diferenciarem, mas já é um começo sentir essa pegada menos infantil.

Dr. Estranho é um personagem incrível e interpretado por um sempre inspirado Benedict Cumberbatch. Para acompanhar o cara temos Mads Mikkelsen na pele do vilão, Tilda Swinton bancando a mestre Yoda, e Chiwetel Ejiofor como o “ajudante” Mordo. Ainda temos Rachel McAdams fazendo uma participação especial como ex-namorada de Strange, num papel com pouco destaque, mas que pelo menos é bem construído. Uma excelente adição para o mundo dos heróis da Marvel.

Mais que mais uma aventura baseada nas HQ’s, Dr. Estranho funciona como entretenimento para o público não-iniciado e garante a diversão de quem já conhece bem esse universo. O timing cômico, efeitos visuais chapantes e carisma do protagonista ajudam bastante para o sucesso da empreitada, mas os méritos são do diretor Scott Derrickson e seu talento para contar uma boa história. Agora é só esperar para ver o herói em ação ao lado do Capitão América, Homem de Ferro, Thor e cia no próximo Vingadores.

PS: Existem duas cenas pós-créditos em Dr. Estranho! Uma delas envolve uma participação especial surpresa e muito divertida.

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