Cinema por quem entende mais de mesa de bar

Em Pedaços (2017)

O novo filme do cineasta Fatih Akin (conhecido pela direção de Contra a Parede) levanta questões muitas vezes ignoradas por parte da Europa. Em Pedaços mostra o luto de uma mulher que perde o marido e o filho em um atentado, e como as motivações para o crime soam absurdas e, ao mesmo tempo, não surpreendem quando percebemos o contexto onde os responsáveis pelo ato convivem. Conhecido por integrar aos seus filmes o contraste das culturas turca e alemã, Akin mostra o preconceito europeu e expõe as deficiências de uma sociedade evoluída e, ao mesmo tempo, retrógrada.

Katja (Diane Kruger, de Bastardos Inglórios) e Nuri (Numan Acar, da série Homeland) formam um casal apaixonado que deixou a vida à margem da lei para trás e segue em frente se dedicando à criação do filho de 6 anos, Rocco. O filme começa com cenas caseiras do casamento deles, realizado enquanto Nuri cumpria pena por tráfico de drogas. Fica evidente nos olhares o sentimento, a cumplicidade e o desejo de esquecer os males do mundo na companhia um do outro. É uma cerimônia simples, mas que exalta o que há de mais importante na relação deles: o amor.

Anos depois, Nuri tem um escritório de consultoria em Hamburgo. Certo dia, Katja deixa Rocco no escritório do pai e sai com o carro da família para encontrar a irmã, com quem tem uma tarde agradável. Ao voltar para buscar o marido e o filho, Katja se depara com uma situação inimaginável. Uma bomba explodiu na frente do escritório de Nuri, matando todos que estavam no imóvel.

- Advertisement -

O ato de crueldade faz a polícia questionar a vida que Nuri levava até então, relembrando seus anos como traficante de drogas e duvidando do exemplo de reinserção social. Mas Katja sabe que as motivações para o ato cruel têm outra origem.

Abordando o neonazismo e a xenofobia, assustadoramente presentes na Europa, o filme mostra o doloroso processo de investigação e julgamento, expondo detalhes devastadores dos ferimentos que levaram Nuri e Rocco à morte. Katja se afunda na tristeza, mas não se permite deixar de lutar por justiça.

Akin é muito competente ao expor esses problemas da Europa (neonazismo e xenofobia) através de uma mulher comum. A partir do ponto de vista de Katja, conhecemos diversas falhas de uma nação que ainda carrega resquícios de um regime que levou (e ainda leva) milhares de pessoas à morte. O filme contém embasamento político, mas não deixa de lado o olhar humanista. Afinal, o que pode levar alguém a acreditar que tem o direito de interromper a vida feliz de uma família? O tema é pesado, mas retratado de maneira que abre os olhos do espectador sem perturbá-lo a ponto de não conseguir dormir à noite.

Diane Kruger entrega o melhor trabalho de sua carreira, dando à Katja o equilíbrio ideal entre seus sentimentos. No começo do filme, ela é uma mulher apaixonada, depois uma mãe e esposa feliz com a vida que leva, mas durante a maior parte do filme, como o título, ela está em pedaços e tenta juntá-los para fazer com que a morte das pessoas que mais amava não passe despercebido perante a justiça. Pelo filme, a atriz conquistou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes, em 2017.

Depois de participar de diversas produções hollywoodianas, Em Pedaços é o primeiro filme inteiramente falando em alemão no currículo da atriz, e venceu o Globo de Ouro 2018 na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira, deixando para trás grandes títulos como Uma Mulher Fantástica (representante do Chile e ganhador do Oscar) e Sem Amor (representante da Rússia).

 

Comentários