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Eros

De: Michelangelo Antonioni, Steven Soderbergh, Wong Kar-Wai. Com: Christopher Buchholz, Regina Nemni, Luisa Ranieri, Robert Downey Jr., Alan Arkin, Chang Chen, Gong Li.

Desde a tradição grega, a palavra Eros denomina um tipo de amor carnal, ligado a consciência desse amor, e na forma como ele se dá materialmente falando, ou seja: através do sexo, da atração física. Aqui, a palavra Eros é o nome do filme de 2004 composto por três contos sobre o amor eros, dirigidos por três grandes cineastas. Cada história tem algo de muito particular, que é claro, vai de acordo com o que conhecemos sobre quem as dirige, o que torna o filme interessante, embora irregular. Em comum temos a fixação pelo corpo feminino, como sendo o perfeito alvo das inclinações eróticas. E de fato ele é não é mesmo?

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A primeira história é O Perigoso Desencadeamento das Coisas do mestre (já falecido) Michelangelo Antonioni. Já sabemos que sua temática é sempre a dificuldade de se comunicar, e de interagir, característica própria da imperfeição humana, o que leva a atos impulsivos e sem muita justificativa. Aqui temos um casal vivido por Christopher Buchholz e Regina Nemni que está se separando. Cada palavra dita soa como uma “poluição ao ar que respiram” e não há mais nada que recupere aquele amor que sentiam um pelo outro. O respeito também parece acabar quando o marido vai até a casa de uma desconhecida (Luiza Ranieri) que lhe chamou a atenção num restaurante. Os dois dormem juntos. A traição não o satisfaz. O encontro entre a amante e a esposa acaba acontecendo. Cenas belissimamente concebidas (a cena da masturbação de Linda é fantástica), mas o filme parece se perder na própria idéia de não conseguir comunicar ao espectador sua idéia de maneira mais convincente. No final, ficamos com uma interrogação na cabeça. Vale mais a pena pela beleza das imagens que pela relevância da história em comparação com os outros episódios.

Logo depois vem Equilíbrio de Steven Soderbergh (de Sexo, Mentiras e Videotape), o mais bem humorado de todos. E talvez por isso mesmo o menos… erótico. Nele vemos um empresário (vivido por um Robert Downey Jr. que está mais pra um George Clooney, só que mais carismático), que tem sonhos eróticos constantes com uma bela mulher. Ao contar isso para seu terapeuta (o ótimo Alan Arkin que arranca risadas como sempre) ele acaba descobrindo a origem desse sonho tão bizarro. O final guarda uma pequena surpresa. Mas nada que surpreenda de fato (o resultado final do segmento, digo).

Mas como o melhor sempre vem por último, A Mão de Wong Kar-Wai, faz valer qualquer frustração que tenhamos tido com Antonioni. Lembrando em vários aspectos seu Amor á Flor da Pele, aqui ele conta uma história que valeria por um filme inteiro! Um aprendiz de alfaiate (Chang Chen) se apaixona por uma prostituta (Gong Li, como sempre linda) para quem faz vestidos cada vez mais bonitos afim de que ela impressione seus clientes. Nunca tendo tocado numa mulher antes, ele acaba cedendo aos encantos da moça, sem saber que futuramente vai ter que se contentar em apenas admirá-la de longe, bem aos moldes de um amor platônico (forte característica do diretor). Ao vesti-la com suas criações, ele sente como se a estivesse tocando. Seu amor e devoção por ela crescem à medida em que ela definha devido aos males da profissão. Ao mesmo tempo em que ele cresce como alfaiate. Mas a dificuldade de se exprimir o que sente não diminui. A cena final é sensacional… “O contato carnal, e a consumação do amor pode se dar de várias formas”, nos diz Kar-Wai.

Uma curiosidade: no lugar de Soderbergh, foi convidado a princípio Almodóvar. Mas devido a outros compromissos ele não pode aceitar o convite. Ficou a cargo dele as vinhetas que anunciam os episódios. E nada mais Almodóvar que colocar Caetano Veloso pra cantar não é mesmo?

Apesar de irregular, é um filme para ser visto. Sobretudo para conhecer uma faceta diferente de Soderbergh, e pra conferir mais um trabalho magnífico de Kar-Wai.

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