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Crítica: Estrelas Além do Tempo (2016)

Cinebiografias com histórias de injustiça social estão se tornando cada vez mais frequentes, onde o grande público conhece casos tristes e revoltantes que nunca haviam sido devidamente divulgados e que, através desses filmes, se possa refletir na gravidade dessas situações para que elas não ocorram novamente. A mais recente e que está chamando atenção esse ano é Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures), dirigido por Theordore Melfi (Um Santo Vizinho), que conta a história de três funcionárias negras que foram essenciais para o sucesso do Projeto Mercury, que mandou o primeiro astronauta americano ao espaço.

O filme apresenta a história real de Katherine Goble (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughn (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe), três matemáticas negras que trabalhavam no processamento de dados no Langley Research Center na Virginia, o principal centro de pesquisas da NASA na época, e que apesar do preconceito (a Virginia era um dos estados onde ainda havia segregação na época), conseguiram ter seu talento reconhecido e ajudaram a mandar o astronauta John Glenn (Glen Powell) ao espaço e contornar a órbita da Terra.

Infelizmente Estrelas Além do Tempo acaba caindo na armadilha de muitas das cinebiografias atuais, onde o filme não consegue traduzir toda a importância da história contada, o que acaba o tornando não muito relevante como cinema. Tanto a direção quanto o roteiro são extremamente simplórios e tímidos, e salvo algumas ótimas cenas (cujo mérito vai para os atores), o filme em geral nunca “alcança voo” realmente (me perdoem pelo trocadilho infeliz, não pude evitar).

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Mas não conseguir alcançar seu potencial não o torna um filme ruim, ao contrário. Melfi pode ter se escolhido não arriscar muito mas pelo menos ele cumpriu seu trabalho e entregou uma obra divertida e informativa, e o roteiro tem a qualidade de ser bem estruturado e focado, pois pelo fato da história se passar no auge da luta pelos Direitos Civis nos Estados Unidos, seria muito fácil introduzirem vários elementos históricos e o roteiro acabar se perdendo, o que felizmente não acontece e tudo se mantém bem equilibrado o tempo todo.

Os atores também contribuem bastante para o sucesso do filme. Taraji P. Henson e Octavia Spencer, apesar de se apoiarem um pouco nas características de personagens anteriores (especialmente Henson que muitas vezes lembra a Cookie Lyon de Empire), estão muito seguras em seus papéis e não decepcionam, assim como Kevin Costner e Jim Parsons, que inclusive conseguiu, pelo menos ao meu ver, se desvencilhar realmente da sombra de Sheldon Cooper com um personagem diferente e crível, ao contrário de sua atuação em The Normal Heart, que por mais que tenha sido boa ainda lembrava em muitos momentos o físico excêntrico de The Big Bang Theory.

Mas quem mais se destaca dentre todos é a cantora Janelle Monáe, em seu primeiro papel como protagonista. Sua performance é sólida e segura e ela a todo momento exala confiança e carisma, o que torna impossível não ficar encantado com todas as suas cenas (em especial a que ela vai ao tribunal para conseguir o direito de ter aula numa universidade exclusiva para brancos). Ela também está presente no muito esperado Moonlight, o que indica que podemos esperar uma carreira muito bem sucedida como atriz para ela (só vamos torcer para que ela não abandone a música por causa disso).

Estrelas Além do Tempo está longe de ser um grande filme, mas apesar de ser modesto cumpre a que veio e não decepciona, e o fato de ele estar sendo líder de bilheteria nos Estados Unidos ajuda a comprovar isso (algo não muito comum para cinebiografias).

 

 

 

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