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Festa de Família

(Festen) De Thomas Vintenberg. Com Ulrich Thomsen, Henning Moritsen

O Dogma 95, movimento encabeçado por Thomas Vintenberg e Lars Von Trier, e apresentado no festival de Cannes de 1998, cria uma dimensão de cinema documental. Existe o que eles chamam de “Voto de Castidade”, conjunto de regras que pretendem criar uma obra onde a autoralidade não esteja evidenciada. É como se os acontecimentos vistos em cena fossem apenas a realidade ganhando espaço, surgindo espontaneamente, de forma tal que não se pode controlá-la, apenas registrá-la, documentá-la. A ficção cria uma “realidade” tão extraordinária que dispensaria a própria necessidade de ficcionar.

Mas trata-se de um movimento muito bem pensado, fruto de pesquisa de seus autores, onde a estética é que determina os recursos a serem utilizados e não o contrário (característica do tal cinema independente). A narrativa cria um ambiente onde tudo pode acontecer, e cabe a câmera apenas filmar. E o papel do diretor é apenas forçar a realidade que existe em seus personagens. O movimento tem suas limitações e porque não dizer seus aspectos dúbios (principalmente com relação à finalidade da coisa toda), mas o resultado, principalmente quando se trata de Festa de Família, o “Dogma #1”, é muito sensacional.

A reunião de família para comemoração dos 60 anos do patriarca em um hotel dá lugar a um acerto de contas, onde, mais que fantasmas, a hipocrisia é que vem à tona. As ligações com o recente O Casamento de Rachel são inevitáveis: temática e estética tem muito em comum. Mas se no filme de 2008 o foco estava na maneira desastrosa com que a família se relacionava com uma filha problemática, em Festa de Família o que se tem é uma crítica clara aos tais valores burgueses, preservados à custa de traumas e assuntos mal resolvidos, empurrados pra baixo do tapete. A cada discurso anunciado um frio na barriga. Roupa suja se lava em casa?

É fato que a tal família é um pouco disfuncional. O discurso da mãe é cruel e ao mesmo tempo franco com relação às frustrações daquela mulher. Seus filhos não são o que ela queria que fossem. Michael o mais novo, é um fracassado no casamento e na vida profissional. Heléne tinha tudo para ser uma bem sucedida advogada, mas optou pela antropologia, já que tem certa facilidade em lidar com povos e raças exóticas (clara, cruel e inteligente alusão ao namorado negro da moça). E finalmente Christian, irmão gêmeo da filha que cometera suicídio naquele mesmo local meses atrás: sua imaginação é o alvo do discurso, talvez porque ele tivesse contado em meio ao jantar sobre quando sofreu abusos de seu pai, episódio que sua mãe negligenciou. E os empregados ainda têm um plano para que nada fique por dizer.

O aspecto bizarro é a forma como os convidados reagem a tantas e pesadas revelações. É um retrato da família burguesa: apesar de tudo, há que se usufruir dos benefícios que aquele mundo proporciona. Porque não fingir que nada aconteceu?

As atuações são viscerais, como a premissa pede. Destaque para os momentos finais, onde depois de um dia todo de comemorações, a bebida começa a fazer efeito, e a noção de limite já está comprometida.

Filme forte, tenso, com uma direção competente, certeira, muito consciente da opção por este tipo de linguagem, e das possibilidades que ela oferece, embora o nome do diretor nem seja creditado (outra regra do Voto de Castidade). Recomendo.

Curiosidade: o Vintenberg faz uma rápida participação como o taxista que traz o namorado da filha ao hotel. Bem interessante ele inclusive, fica a dica.

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