Crítica: A Garota Dinamarquesa, de Tom Hooper
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Filme: A Garota Dinamarquesa

a-garota-dinamarquesa-crítica-filme-838x431 Filme: A Garota Dinamarquesa

O tema transgênero está em voga atualmente e filmes que o abordam são sempre bem-vindos. Tom Hooper decidiu contar a história da dinamarquesa Lili Elbe em 2015 e, por mais que a ideia tenha sido boa e a execução de qualidade, é difícil sentir algo forte após assistir A Garota Dinamarquesa.

Não sei por que não me comovi com a adaptação do cineasta; acho que foram várias coisas que me incomodaram ao decorrer da película e, no final, resultaram na minha falta de conexão com o que vi. Eu sei que o roteiro é inspirado pela vida de Lili (Eddie Redmayne) e Gerda Weneger (Alicia Vikander), mas o livro no qual ele é baseado não tem compromisso com a realidade e adiciona diversos detalhes fictícios. Pessoalmente, não aprecio adaptações que fazem mudanças demais, ainda mais quando as mesmas transformam algo totalmente.

O que acontece aqui? Bom, a relação do casal inicia como amor à primeira vista, o casamento perfeito. Quando Einar (seu nome antes da transformação) passa a descobrir quem ele realmente é, isso abala sua esposa bastante e ela sente falta do antigo parceiro e até cobra isso dele. Eles têm várias discussões no longa, mas, eventualmente, Gerda apoia Lili e a usa como sua modelo em exposições e o fim é, digamos, clichê demais. A protagonista morre de complicações das cirurgias de mudança de sexo – o que realmente aconteceu na vida real -, enquanto a mulher encontra o amor ao lado de um outro homem.

Não foi bem assim segundo relatos históricos. Existem alguns que dizem que Gerda era homossexual e o casamento deles era de fachada, enquanto outros dizem que ela nunca teve problemas em aceitar a orientação sexual do esposo. De qualquer maneira, a narrativa extremamente romântica e meio conto de fadas que vemos na tela é falsa. Eu sei, é um drama cinematográfico, mas mesmo assim. Pessoas vão ver e acreditar que foi assim que tudo aconteceu.

Outro problema foram os personagens, consequência dessa abordagem. A única que me encantou de verdade foi Ulla (Amber Heard), sempre com muita vida na tela e simpatia. Redmayne é um ótimo ator, mas em alguns momentos me pareceu narcisista demais e um pouco forçado. Sem contar sua cena final e uma em que observa uma prostituta se tocar e repete seus movimentos por uma janela, ele raramente me fez conectar com a batalha interna de seu papel. Vikander, co-protagonista, possui uma ótima química com ele e mais cenas que nos emocionam, talvez porque ela chora o tempo todo e é quem visivelmente sofre mais. Os demais atores, como Ben Whishaw e Matthias Schoenaerts, são totalmente mal utilizados e desenvolvidos.

Tecnicamente, é tudo muito bem feito, especialmente o figurino e a maquiagem. Porém, nada que torne A Garota Dinamarquesa singular no gênero. De modo resumido, a adaptação sobre Lili e Gerda não alcança o seu potencial e poderia ter explorado melhor o seu tema em si ao invés de focar no relacionamento (falso) do casal principal. Não deixa de ser uma maneira bela de contar, nem que seja brevemente, a história verdadeira da protagonista, deixo claro; apenas não tem nada grandioso no filme de Hooper.

 

Daniela Pacheco

Fascinada por cinema desde pequena. Ídolos? River Phoenix, Audrey Hepburn, Wagner Moura e Marion Cotillard.