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Crítica: Acorrentados (2012)

JENNIFER CHAMBERS LYNCH REAPARECE NO CINEMA DE BUTECO para mais um texto de sua obra. Depois da análise de Encaixotando Helena, é a vez de comentar o igualmente interessante (e violento) Acorrentados (Chained, 2012).

O longa-metragem apresenta a história de uma mãe e um filho sequestrados por um taxista. Após estuprar e assassinar a mulher, o psicopata Bob (Vincent D’Onofrio) decide manter o garoto como o seu refém (ou escravo) para o “resto da vida”. O garoto então se torna cúmplice da ânsia assassina de Bob, que passa anos levando mulheres para terem o mesmo destino da mãe do jovem.

Lynch tem um dom único de criar psicopatas. Além do maluco surtado de Encaixotando Helena, ela também retratou uma dupla de matadores no surpreendente Surveillance. A grande diferença é agora, o psicopata da vez, recebe um tratamento diferenciado em comparação com os outros roteiros – talvez se aproximando um pouco do doente com problemas maternos de Encaixotando Helena. De forma brilhante, a narrativa apresenta pistas sobre o passado violento de Bob e sua complicada relação familiar. Pelo que entendi, ele é obrigado a transar com a própria mãe – ou a observar o irmão fazendo isso. Portanto se explica o ódio de Bob por todas as outras mulheres do mundo, que ele diz que “pedem” para que ele as mate.

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A dinâmica entre Bob e Rabbit logo evolui para uma relação de pai e filho. Mesmo cultivando um ódio (explicitado na cena em que dá um berro silencioso no rosto de Bob), podemos imaginar que Coelho passa a ter certo laço emocional com seu sequestrador depois de todos os anos juntos e obrigado a presenciar tantas mortes. Chega a ser impressionante como o Coelho não se transformou em um verdadeiro psicopata depois de tantos anos preso e sofrendo inúmeros abusos morais. Talvez seja um ponto fora da curva do longa-metragem, ainda que outros traumas sejam visíveis na expressão física de Eamon Farren.

Aliás, vamos falar, né? Que puta ator sensacional é esse Vincent D’Onofrio. Dá arrepio acompanhar o seu trabalho e caracterizações dos tipos mais complexos, como fez recentemente interpretando Wilson Fisk na série Demolidor.

Considerei desnecessária a revelação final durante o terceiro ato. Acorrentados poderia muito bem ter acabado sem mostrar Rabbit reencontrando o seu pai, mas a verdade é que otimismo não é bem a praia das obras de Lynch, que em diversas oportunidades fez questão de mostrar um cinema bem parecido com a vida real: o mal costuma prevalecer.

Indicado para todos os fãs de suspenses de terror sobre psicopatas, Acorrentados possui um plus especial com seu grande arco dramático com o retrato de uma pessoa doente por causa do seu passado cheio de abusos. Para quem apreciou o drama O Quarto de Jack, concorrente ao Oscar 2016, Acorrentados é como uma versão mais sombria de quem Jack poderia ter se tornado, caso não tivesse a proteção da mãe.

Acorrentados foi uma das últimas sugestões recebidas para integrar a lista de 51 melhores filmes com psicopatas de todos os tempos. Publicaremos o material completo no começo do mês que vem.

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