Crítica: The Fireworks Woman, de Wes Craven
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Filme: Angela – The Fireworks Woman (1975)

Angela-Fireworks-Woman- Filme: Angela - The Fireworks Woman (1975)
COMEÇO DE CARREIRA NUNCA É FÁCIL PARA NINGUÉM. Arnold Schwarzenegger que o diga, com o seu ensaio fotográfico numa revista gay dos anos 1970. Muitos atores iniciaram a carreira usando seus corpos como forma de garantir trabalhos, como é o caso de Cameron Diaz (She’s no Angel, de 1992) e Sylvester Stallone (ou você achava que o apelido de “garanhão italiano” era uma brincadeira?). O curioso é quando você vê um diretor como Wes Craven, que havia acabado de fazer grande sucesso com o sádico Aniversário Macabro, sendo obrigado a dirigir um porno chic para levantar uma grana e filmar seu próximo projeto “sério”.

Diz a lenda que Craven estava com dificuldades de conseguir trabalhos e passava por uma crise financeira na época. Independente dos motivos, o fato é que Craven havia feito um clássico do horror e teve que passar pelo embaraço de comandar um filme adulto. Tudo bem dirigir um pornô, até Francis Ford Coppola já havia passado por isso no começo da carreira com Tonight for Sure. No entanto, o cineasta preferiu usar um pseudônimo, Abe Snake, e não “sujar” a sua carreira.

Em Angela – The Fireworks Woman acompanhamos a história de um relacionamento incestuoso entre dois irmãos, Angela (Sarah Nicholson) e Peter (Eric Edwards). A vida dos dois parecia um paraíso com muitas trepadas e declarações de amor eterno, até Peter inicia uma carreira religiosa e passa a acreditar que Deus não está feliz com a sua relação proibida. Abandonada pelo grande amor de sua vida, Angela inicia uma busca por alguém capaz de completá-la como o irmão fazia e desperta um forte (e até mesmo inexplicável) desejo em homens e mulheres que cruzam o seu caminho.

Me surpreendi com o quanto a obra é explícita. Achava que era uma coisa mais leve, nível Emmanuelle, mas Craven não ficou tímido. Temos cenas para todas as posições e modalidades sexuais: oral, anal, dupla penetração (eu não tinha ideia que isso existia nos anos 1970), menage, orgias etc. Tudo com aquele estilo vintage totalmente diferente das produções adultas que existem hoje em dia. Ou seja, todos os atores parecem verdadeiros macacos.

Dentre as coisas mais bizarras no filme (e cara, vou te dizer… existem MUITAS coisas bizarras em The Fireworks Woman) se destaca as fantasias sexuais de Angela com o irmão com “Canon in D”, de Johann Pachelbe, como trilha sonora. Tenho uma relação intensa com música e aceitaria ver uma cena de sexo com um daqueles temas mais sujos que o compositor Lalo Schifrin produziu para Dirty Harry ou Assalto à 13ª DP, de John Carpenter, mas não consegui digerir bem uma trepada explícita com essa música empata foda. Surreal. Ao mesmo tempo poderia dizer que o tema é usado para fortalecer o vínculo existente entre os dois, que Peter é incomparável e uma figura quase divina na vida de Angela. Como espectador de um filme pornô, acho que trabalhar esse tipo de detalhe usando a porra de uma música dessas não é muito esperto.

Se eu consumisse esse tipo de entretenimento, provavelmente iria ficar avançando logo para as partes de sexo e deixaria a história de lado, no entanto Wes Craven cria uma trama perturbada demais para eu resistir à curiosidade de entender onde tudo aquilo vai chegar. Angela é treinada por um casal BDSM (uma coroa tarada maligna e um sósia do Donald Sutherland), conhece um casal e transa com eles, é estuprada por pescadores (em uma das cenas mais esquisitas e desnecessárias da produção, pois não acrescenta nada para a narrativa e a única defesa plausível é que Wes Craven era fascinado com esse tipo de violência e quis “homenagear” seu filme anterior) e organiza uma fucking orgia bizarra com direito a fucking fogos de artifícios.

Como diretor de pornô, Craven se garantiu com um produto de “qualidade” para a era dourada do cinema adulto. Melhor ainda é ter conseguido preservar suas idiossincrasias em um gênero diferente daquele que ele faria a sua carreira, ainda que tenha explicitado que o terror produzido nos anos 1970 não estava tão distante assim da pornografia. Só que isso não é uma grande novidade, não é mesmo?

PS: Caraca! Em oito anos de vida, essa é a primeira vez que o Cinema de Buteco fala de putaria abertamente. Isso merece até uma caipirinha. Tive até que criar uma categoria nova!

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.