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Filme: Cidades de Papel

O autor de A Culpa é das Estrelas está de volta com mais uma adaptação de um de seus best-sellers: mas desta vez a fórmula não funcionou.

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JOHN GREEN ACERTOU NA LOTERIA DEPOIS QUE A CULPA É DAS ESTRELAS ELEVOU SEU SUCESSO PARA UM PÚBLICO MAIOR, mas cuja faixa etária ainda não passava dos 25 anos. Os estúdios logo ficaram sedentos para levar as suas outras obras para o cinema. Os direitos de Quem é Você, Alasca? (melhor livro dele) já foram adquiridos e a estreia mais recente é de um dos livros mais inspirados do escritor: Cidades de Papel. Levando em consideração a qualidade da adaptação do filme estrelado por Shailene Woodley e que a mesma equipe estava por trás da produção, a expectativa era alta – especialmente para os fãs da obra original. Infelizmente, a adaptação de Cidades de Papel perde toda a essência cuidadosamente criada por Green.

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Q (Nat Wolff) é um adolescente certinho e que “sobrevive” diariamente fazendo tudo aquilo que se espera dele. Anda sempre com seus dois melhores amigos Ben (Austin Abrams) e Radar (Justice Smith), tira boas notas, um filho exemplar. No entanto, nem tudo está do jeito que deveria: ele é apaixonado por Margo (Cara Delevingne), uma garota “fora de série” que é sua vizinha e uma das meninas mais populares da escola. Óbvio que a garota não dá a mínima para ele, né? A história começa quando Margo desaparece e Q inicia seus esforços para descobrir o seu paradeiro. Durante sua busca, ele acaba amadurecendo e conhecendo mais de si mesmo.

(Odeio esses parágrafos sinopses)

Dirigido por Jake Schreier (Robot & Frank), a adaptação de Cidades de Papel usa e abusa de narrações em off. Na introdução acompanhamos a apresentação de Margo e o primeiro encontro dela com seu vizinho, ainda na infância. Após isso, conhecemos um pouco mais de nosso protagonista. O problema é que Cidades de Papel parece sofrer de uma necessidade crônica de não deixar nada rolar suavemente. Todas as informações são jogadas rapidamente, o que prejudica demais a construção dos personagens e a questão de nos fazer convencer que Margo é uma garota especial. No livro, compramos a ideia. No filme? Não. A gente apenas acha que ela é uma patricinha maluca – e totalmente unidimensional, o que significa um descaso do roteiro em mostrar realmente como ela vive e como conseguia ser tão “incrível”. O roteiro diz isso e nós temos que “aceitar” com a pipoca ou o refrigerante na boca, ou um cafuné da namorada ou namorado.

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Ainda que a pressa seja o maior inimigo da adaptação, temos momentos divertidos que funcionam para arrancar boas risadas, especialmente se você sabe como é a sensação de fazer compras de madrugada e propositadamente incluir os itens mais estranhos apenas para se divertir com as expressões do caixa. Temos a química entre os três adolescentes que rende momentos de pura cumplicidade, como na piada sobre a estranha coleção dos pais de Radar ou no jeito que eles se tratam. Sem dúvida, um dos pontos altos da produção, e que fazem você rir alto com as consequências de viajar de carro depois de uma festa em que você encheu a cara.

Maior que o meu amor pelo cinema é o meu interesse pela música. Ainda assim, não consigo deixar de me sentir um velho ultrapassado quando sou incapaz de reconhecer 99% das canções que tocam durante Cidades de Papel. Em A Culpa é das Estrelas não foi muito diferente. Pelo menos, desta vez, tive a “sorte” de perceber “Skinny Love”, do Bon Iver, tocando em uma das cenas em que Q está refletindo e insistindo que irá encontrar seu grande amor. Não sei se é o peso da idade ou se John Green é hipster demais para mim, mas é frustrante não reconhecer todas as canções de um filme. Ainda que a maioria seja ruim e não seja realmente algo para se lamentar. Enfim.

Sem pudor algum em fazer autoreferências ao trabalho de John Green numa cena que deixará as garotas histéricas (o que provavelmente pode significar uma boa piada passando em branco), Schreier faz uma pequena referência ao excelente As Vantagens de Ser Invisível ao colocar Margo com a cabeça para fora de um carro em movimento e a iluminação nos faz lembrar imediatamente de Emma Watson. Só faltou um túnel e David Bowie. É uma cena pequena, mas que tocará o coração daqueles que tornaram a obra de Stephen Chbosky em uma bíblia. “Nós aceitamos o amor que achamos que merecemos”.

Triste que o amadurecimento de Q até o momento em que “conhece” a verdadeira Margo não tenham conseguido o mesmo efeito do livro. A Margo do cinema é apenas uma garota perdida que tenta se encontrar (e vive com o peso de lidar com as histórias incríveis que as pessoas imaginam ao seu respeito, como se ela realmente fosse alguém especial), enquanto a Margo do livro é perdida, mas também uma grande idiota arrogante que se acha a rainha da cocada preta. Q percebe que está amando a ideia de alguém que ele sequer sabe se existe fora da cabeça dele, e esse momento é lindo no original. Parece que para atender as necessidades do estúdio em encerrar a história com um baile, os roteiristas tenham perdido uma bela oportunidade de evitar o clichê. O fator amizade é essencial na trama, mas mais do que isso: Cidades de Papel é uma obra especial porque trata bem do que é se conformar que nem sempre quem amamos é a pessoa certa para a nossa vida.

“Que um dia você encontre a sua aventura, a sua Margo, e que ela te faça questionar todas as suas certezas e convicções por amor”, foi o que escreveram na dedicatória do meu livro. Também foi o que potencializou ainda mais a força da conclusão da obra de John Green. É triste aceitar que o filme mudou o fundamental e se enfraqueceu tanto por conta dos seus defeitos. É quase como experimentar um caipirinha falsificada feita com vodka com o nome de uma música do Capital Inicial: a combinação de tudo é um verdadeiro desastre, mas podia ser pior. Sempre pode.

Trailer: Cidades de Papel

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