Crítica: Como eu Era Antes de Você, de Thea Sharrock
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Crítica: Como Eu Era Antes de Você (2016)

poster-como-eu-era-antes-de-voce Crítica: Como Eu Era Antes de Você (2016)O HYPE IRRITA. Especialmente quando você sabe que o público pop atual costuma valorizar obras como Crepúsculo e/ou Cinquenta Tons de Cinza como ideais de romance. Ou, Deus me livre, qualquer adaptação de Nicholas Sparks que não seja Diário de uma Paixão. Gostar de filmes de romance é uma missão tão árdua quanto amar produções de terror. Por isso, resisti um pouco à ideia de assistir Como eu Era Antes de Você (Me Before You, 2016), de Thea Sharrock.

Pois bem. Só não digo que fiz cagada porque ainda estou com muito tempo sobrando para organizar minhas listas de final de ano, mas toda esse meu pré-conceito inicial do longa-metragem se provou completamente equivocado. Não é que a adaptação do best-seller de Jojo Moyes seja inesquecível, memorável ou a melhor coisa dos últimos tempos da última semana, mas é uma deliciosa (e triste) história de amor. E isso basta para encantar os corações moles perdidos nessa geração Tinder.

O tema principal de Como Eu Era Antes de Você é a eutanásia, fique avisado. O personagem de Sam Claflin (Jogos Vorazes) sofre um acidente que o deixa imobilizado e sentindo muita dor por dois anos. Numa última tentativa de tentar fazer o filho mudar de ideia em relação a deixar de viver, os seus pais contratam os serviços de uma bela jovem (Emilia Clarke) para ser uma espécie de babá. A falta de aptidão demonstrada por Lou na entrevista, deixa implícito que ela conseguiu o emprego pela sua beleza e chance de mexer com o coração do depressivo Will.

Poderíamos falar dos problemas presentes nessa suposição, mas isso significaria ignorar o desespero da mãe em tentar salvar a vida do próprio filho. A partir da perspectiva dela, é uma última tentativa e, bem, vale tudo, não é mesmo? O tal feeling maternal de que talvez o amor pudesse reverter a decisão de Will. Por esses motivos, dá para ignorar esses deslizes do roteiro. Outra necessidade do público é não pensar muito na riqueza da família do personagem, que torna todas as ideias de Lou viáveis.

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Famosa por interpretar a loira Danaerys em Game of Thrones, Emilia Clarke surpreende com uma atuação cômica e com peso dramático nos momentos certos. Se na TV e em O Exterminador do Futuro 5 ela age de maneira fria e quase robótica, desta vez interpreta perfeitamente uma pamonha humana que vive sorrindo. Pessoas mais rabugentas certamente ficarão irritados com o excesso de alegria e os sorrisos infantis, mas encaixa na proposta. A sua caracterização é um show a parte, com roupas de gosto muito duvidoso.

Confesso que temi por uma mudança brusca na conclusão da obra. Lou dá a sua vida para tentar salvar a vontade de viver em Will, e uma implicação direta disso é obviamente um envolvimento amoroso. Sabe como é: por mais que goste de ver histórias de amor no cinema, essa ideia de que amar alguém faz você mudar de ideia e questionar seus próprios valores é idiota. Numa das cenas, Lou chama Will de egoísta. Ela diz que entregou tanto dela e ele insiste na vontade de morrer. Egoísmo nessa história certamente não está representado na figura de quem vive com dores fortes (o que aliás, não é bem representado no filme, diga-se de passagem), doenças seguidas, ver a ex-namorada se casando com o seu melhor amigo, ficar preso numa cadeira de rodas para o resto da vida etc. Parecia que o roteiro seria politicamente correto e mostraria o amor mudando escolhas, valorizando a vida e a esperança acima de tudo, dentre outros conceitos fáceis de serem vomitados por quem não está no lugar da vítima.

A trilha sonora inclui duas canções de Ed Sheeran (“Thinking Out Loud” na primeira cena em que o casal realmente se aproxima na minha sequência favorita do filme; e “Photograph”) e outros artistas do momento.

Lembrando um pouco o francês Intocáveis, excluindo a parte do romance e tal, Como eu Era Antes de Você é uma bela história sobre escolhas, reencontrar o prazer de viver uma última vez e coragem. Como romance pode deixar a desejar para públicos menos interessados em narrativas ousadas, mas certamente atende aqueles que preferem histórias mais próximas da realidade e com verdadeiros finais felizes. Uma excelente surpresa, principalmente se tratando de Emilia Clarke. Recomendado!

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.