Filme: Coração de Leão (Mostra de São Paulo 2015)

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Há longas que conseguem funcionar apesar dos esforços de seus roteiristas de estragar a experiência com diálogos embaraçosos, monólogos expositivos, coincidências absurdas e reviravoltas desnecessárias. Este sueco Coração de Leão, por exemplo, apresenta cada um desses problemas, mas a partir do momento em que seus dois personagens centrais nos conquistam de vez, torna-se praticamente impossível concentrar nossas atenções em reclamar delas, já que o mais importante passa a ser a torcida pelo futuro da inusitada família que tenta se formar diante de nós.

Escrito por Aleksi Bardy e dirigido por Dome Karukoski, o longa tem início retratando o envolvimento sexual e romântico de Teppo (Franzén) e Sari (Birn), que se conhecem em um bar e não demoram muito para desejar um relacionamento estável. O problema é que Teppo é um preconceituoso e violento líder de uma gangue que prega a supremacia ariana e chega a espancar negros, latinos e asiáticos, enquanto Sari é mãe de um filho negro resultado de um relacionamento anterior – e quando o rapaz começa a desenvolver uma amizade com o pequeno Rhamadhani (Sidibeh), tanto seus colegas neo-nazis quando seu irmão caçula Harri (Pääkkönen), que acabou de ser expulso do exército, entrarão (com agressividade, claro) no caminho do sujeito.

Sem a menor vergonha de soar piegas e clichê, o roteiro de Bardy já abre a projeção com um diálogo óbvio em que um membro da gangue de Teppo se dirige ao sujeito e exclama: “E se você tiver algum problema, lembre-se que fomos nós que te ajudamos, hein?” – o prenúncio é infalível: a conta será cobrada quando ele “trair o movimento”. Ao longo de toda a projeção, aliás, o roteiro busca explicar cada um de seus conflitos através de diálogos batidos que poderiam ter saído de qualquer filme sobre preconceitos raciais e/ou de reconciliação entre pessoas que se odeiam já produzidos – o que não o impede de acertar em uma ou outra fala mais sensível como aquela em que Rhamadhani rebate a um incentivo de Teppo de revidar as agressões dos meninos brancos com um certeiro “Então devo revidar quando babacas como você me batem?”.

O que Bardy e o diretor Dome Karukoski parecem não perceber é que é justamente nos momentos de maior sutileza que o filme atinge seus momentos mais inspirados, como na belíssima cena em que Teppo resume sua nova postura com um simples “Você vai jogar bola?” ou naquela outra em que Rhamadhani ri de uma piada interna deixando sua mãe sem entender e atestando o processo de amadurecimento que tanto ele quanto Teppo atravessaram durante seus longos meses de convivência inicialmente forçada.

O que mais pedir de um drama como este, afinal de contas, que personagens humanos e relacionamentos em que nós realmente acreditamos? Ancorado nas atuações sensíveis de Peter Franzén e Yusufa Sidibeh, Coração de Leão é um longa eficiente tanto como drama quanto como estudo de personagens.

Apesar da necessidade de inserir uma reviravolta absolutamente aleatória em seu desfecho, do personagem embaraçosamente estereotipado que surge em determinado momento da projeção, de… de…

Coração de Leão (Leijonasydän, Suécia, 2013). Dirigido por Dome Karukoski. Escrito por Aleksi Bardy. Com Peter Franzén, Laura Birn, Jasper Pääkkönen, Yusufa Sidibeh e Jussi Vatanen.

João Marcos Flores

Crítico de Cinema associado à OFCS (Online Film Critics Society, a maior associação de críticos online do mundo, sediada nos EUA) e editor do blog Cineviews.