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Crítica: Dormindo com o Inimigo (1991)

UM ANO APÓS CONQUISTAR HOLLYWOOD COM UMA LINDA MULHER, Julia Roberts comeu o pão que o diabo amassou no thriller sobre relacionamento abusivo Dormindo com o Inimigo (Sleeping With the Enemy, 1991). O talento da atriz é provavelmente uma das únicas coisas que realmente salvam a produção, que é um clássico exemplo de premissa boa e execução porca.

Dormindo com o Inimigo conta a história de uma mulher que decide fugir dos abusos do marido e iniciar uma nova vida longe dele. Mas como ela é a Julia Roberts, o cara não vai desistir muito fácil e logo descobre o seu paradeiro para voltar a aterrorizar a esposa.

Dirigido por Joseph Ruben (O Anjo Malvado), o filme esbarra em lugares comuns e clichês do gênero para se desenvolver, o que acaba prejudicando a qualidade da narrativa. São raros os lampejos de criatividade e boa parte disso se deve à eficiente construção da personagem de Roberts já nos minutos iniciais através da trilha sonora de Jerry Goldsmith.

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Não vou mentir. Logo que o filme começou com um tema que me remetia diretamente para ideia de família perfeita e conforto do lar, tive uma dor profunda no saco. A trilha dá uma preguiça imediata e isso te faz repensar se vale mesmo a pena gastar horas preciosas do dia assistindo para depois escrever sobre. No entanto, esse ato musical inicial é apenas para apresentar Laura (Roberts) e nos fazer imaginar que ela é uma esposa apaixonada pelo marido, com quem vive em plena harmonia. Minutos depois, os espectadores descobrem que Martin (Patrick Bergin) tem TOC e um temperamento controlador que contrasta com a primeira impressão. Talvez ele não seja tão bonzinho assim. A música já se torna menos feliz e mais misteriosa. Mas a partir do momento em que a verdadeira faceta de Martin é escancarada, o material composto por Goldsmith se altera radicalmente para uma melodia mais triste. Em apenas três breves momentos, Dormindo com o Inimigo nos diz tudo que precisamos saber sobre os seus protagonistas. Méritos de Goldsmith e de Ruben.

Em algumas sequências, a obra apela para o suspense raso e barato ao brincar com a nossa ansiedade e expectativa de levar algum susto. Existem boas construções, como nas várias vezes em que Ben (Kevin Anderson) assusta Laura e ouve sua opinião à respeito de determinada música clássica e como isso é usado no terceiro ato ou mesmo a questão do TOC com Laura desarrumando as toalhas e depois vendo tudo arrumado novamente, mas parecem detalhes vazios quando a gente avalia o conjunto inteiro. Dormindo com o Inimigo é um tanto frustrante. Como se não explorasse de verdade todo o seu potencial e pegasse leve com esse tema tão delicado.

Martin é um autêntico psicopata que representa perigo para a vida de sua esposa. É a encarnação de homens que existem na vida real prejudicando mulheres que não têm a quem recorrer diante das agressões e ameaças. Percebemos o pavor de Laura nos minutos finais, quando percebe que seu marido a encontrou. Ela mal tem reação além de chorar, e isso é uma escolha sensata e inteligente da produção. Mas realmente fica a impressão de que o uso dos clichês (sério que temos a famosa cena do inimigo que ressuscita dos mortos depois de levar mil tiros e dá um último susto?) prejudicou demais a qualidade do filme.

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