Crítica: EdTV (1999)

Essa semana continuo o especial com a filmografia de Ron Howard falando de EdTV, um dos meus filmes favoritos do cineasta.

EdTV destaque

MUITOS ANOS ANOS ANTES DE MATTHEW MCCONAUGHEY E WOODY HARRELSON ESTRELAREM JUNTOS A EXCEPCIONAL TEMPORADA DE ESTREIA DE TRUE DETECTIVE, a dupla de atores contracenou no divertido e reflexivo EdTV, de Ron Howard, em 1999. O longa-metragem foi lançado numa época em que a Internet não era nem perto do que conhecemos hoje em dia e locadoras ainda existiam para atender as demandas dos cinéfilos das redondezas. Curiosamente, no ano anterior, Jim Carrey estrelou O Show de Truman, que possui uma temática bem semelhante, apesar de serem obras completamente distintas.

O roteiro é bem simples: Ed (McConaughey) é um zé ninguém de 31 anos que se torna a estrela de um reality show que mostra a sua vida 24 horas por dia. EdTV é uma produção que nossa geração entende bem, pois é uma bela crítica aos 15 minutos de fama de todos esses ilustres desconhecidos que se tornam especiais apenas por serem famosos, ao contrário do que acontecia antes quando as pessoas já famosas se tornavam especiais para seus fãs.

Ao longo do desenvolvimento da trama, descobrimos que Ed é apaixonado pela namorada do irmão (Harrelson). A narrativa deixa pistas sutis, como a maneira pouco natural como Ed conversa com a “cunhada”. Em uma cena menos discreta, a câmera foca o rosto de Shari (Jenna Elfman) admirando Ed com um daqueles olhares que nós sabemos bem o que significa. O desenvolvimento do relacionamento do casal é gradual, num ritmo gostoso e que não cansa o espectador mesmo com tantas idas e vindas.

Agora o bom mesmo de EdTV são os familiares de Ed. Temos de tudo. Do irmão orgulhoso disposto a provar para os telespectadores do programa que ele não é ruim de cama, uma irmã apaixonada por um péssimo cantor, uma mãe com um comportamento sexual um tanto impulsivo, um pai que reaparece para pedir grana, e um padrasto que vive numa cadeira de rodas. Cada um desses personagens nos conquista por deixar claro que não precisamos aparecer na televisão para sermos especiais ou com várias histórias para contar.

A grande diferença de EdTV para O Show de Truman é que Ed escolheu ser usado como cobaia da de um canal de televisão, ao contrário do personagem de Jim Carrey que simplesmente não tinha ideia do que estava acontecendo ao seu redor. Além de possuírem abordagens diferenciadas. O filme de Howard pode ser facilmente encarado como uma comédia sobre sociedade de consumo e como nos tornamos alienados rapidamente, enquanto O Show de Truman não se reduz apenas a uma crítica comportamental e nos apresenta o drama de uma vítima da ambição dos canais de televisão.

Os consumidores, ou telespectadores, são tratados como verdadeiros bebês bípedes. No começo, a narrativa utiliza alguns desses telespectadores para mostrar a relação direta com o programa. Alguns amam imediatamente, outros detestam. E com isso, quando aqueles que detestaram passam a se envolver, o filme de Howard cria uma piada com o nosso próprio jeito de ser. Quantos de nós já não se pegou reclamando de alguma coisa na televisão e/ou internet, e logo depois passou a consumir aquilo? Howard é brilhante ao trabalhar com essa ideia de que aquele desconhecido (Ed) somos todos nós e por isso ele desperta o interesse das pessoas, que deixam de fazer tudo para ficarem vidradas na frente da televisão assistindo a qualquer coisa que ele faça.

O filme de Ron Howard compõe uma curiosa “trilogia” da força maligna da mídia. Em Apollo 13 (1995) e O Preço de um Resgate (1996), o diretor mostrou como a imprensa atua de maneira hipócrita e sensacionalista, buscando satisfazer o desejo de seus telespectadores sem medir esforços para causar sofrimento daqueles que estão diretamente envolvidos com uma determinada situação. Depois de trabalhar com a expectativa por uma tragédia com os tripulantes da Apollo 13 e a tensão que uma recompensa milionária causa nos sequestradores de O Preço de Um Resgate, Howard encerra seu arco de histórias com um reality show sobre os exageros e a falta de escrúpulos dos grandes executivos. A privacidade se torna uma ilusão quando existe dinheiro envolvido. Infelizmente, o roteiro soa um tanto infantil com a lição de moral “pimenta no cu dos outros é refresco” na conclusão do terceiro ato, mas nada que estrague todo o brilho da crítica desenvolvida pelo diretor ao longo das duas horas de duração da trama.

EdTV não é uma daquelas obras imperdíveis da história do cinema. Putz, ele está bem longe disso! Certamente não é nem uma das cinco obras obrigatórias da carreira de Ron Howard, mas confesso que é o meu filme favorito do diretor e aquele que eu recomendaria para qualquer pessoa interessada em assistir a uma obra leve, divertida e que falasse sobre a mídia e seus malefícios para a população. Além disso, é sempre bom ver Matthew McConaughey em cena, ainda mais quando ele está tão livre e confortável para fazer o que bem entender e conquistar nossa atenção incondicional.

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.