Crítica: Festim Diabólico (1948)

Podemos considerar Festim Diabólico como um cartão postal para a filmografia de Hitchcock, pois neste filme, encontram-se alguns dos principais elementos chaves do diretor, sendo que todos são apresentados e trabalhados com imensa genialidade. É possível tentarmos destrinchar e elencar tais componentes básicos principais. Vamos lá: talento (técnico – envolvendo roteiro, elenco, direção, filmagem, e quaisquer outros aspectos), a atmosfera de mistério (clássica de Hitchcock, trabalhada com uma singularidade própria deste mestre do cinema),  e claro, um item essencial para fechar a lista: surpresas surgindo o tempo todo e convidando cada vez mais o espectador a participar da obra. Ah, e claro, como de costume, Hitchcock aparece em uma das cenas, logo no início (e eu não vou dizer em que momento isso ocorre, nem quando ou onde. Descubra). Festim Diabólico, ainda carrega uma breve discussão filosófica em sua história, na qual Nietzsche é mencionado e os personagens fazem um breve debate ético. A junção de todos estes componentes resulta espetacularmente numa arte primorosa e acalorada.

Festim Diabólico

A primeira cena já vai direto ao ponto central sobre o qual a história se sustenta: dois homens (chamados Brandon e Phillip) assassinam um amigo deles (o David). O motivo para tal ato é simplesmente, de acordo com os próprios executores, “matar por prazer”, e eles fazem isso apenas visando cometer o “crime ideal”, numa mera tentativa de mostrar a si mesmos as suas capacidades, as suas forças e superações de si. Tal ação é interpretada pelos personagens que a executam, como algo que é feito exclusivamente por seres humanos fortes, superiores e que estão além da massa. Um destes homens, Brandon, é frio, cauteloso, e maquiavélico; o outro, Phillip, demonstra sempre um ar de arrependimento e preocupação com o crime por eles cometido.

Para apimentar a situação, nas cenas seguintes, os assassinos escondem o corpo do defunto num baú, e começam a preparar uma festa que darão naquela mesma  noite. Os preparativos incluem que os comes e bebes sejam transferidos de uma mesa, para… o baú, é claro. Candelabros e petiscos são cuidadosamente colocados em cima de uma toalha que enfeita o móvel. Tudo isso acontece num único ambiente, e é apenas neste local que o filme todo se desenrola. E além de ter sido rodado neste único espaço, há outro aspecto técnico curioso: o longa foi feito um plano-sequência, ou seja, toda a ação acontece diretamente, sem cortes.

Os convidados começam a chegar para a reunião. Por acaso, todos eles conheciam David, a namorada dele está lá, a mãe, o pai, um amigo dele… Aliás, o próprio David havia sido convidado para a festa, portanto, conforme o tempo vai passando, todos vão sentindo sua ausência e estranhando seu sumiço. Mal sabem eles, que David está logo ali, morto, estrangulado, num baú. Apesar de tantas pessoas sentirem sua falta, ninguém desconfia da dupla Brandon e Phillip. Exceto um professor que está participando da festa. Este personagem começa a notar o comportamento de Phillip e, aos poucos, ligando os fatos, começa a perceber que há algo estranho acontecendo, e que os dois anfitriões sabem de algo a respeito de David.

Um fato interessante é que este professor, em seus estudos, havia desenvolvido a ideia de realização de crimes por prazer subjetivo, e foi desta fonte, que os criminosos tiraram sua inspiração para a execução de seu colega. Em certo momento, numa cena bastante provocativa, os convidados conversam sobre a moral, especulando o que é bom e o que é mal, e pautando-se em Nietzsche como referencial, já que para este pensador, existe um homem que está a frente de seu tempo e a frente de si próprio, que se supera através do abandono de determinações vigentes (inclusive as morais). O papo acaba causando desconforto em alguns convidados e é brevemente encerrado. Mas é neste momento que Brandon demonstra seu envolvimento com a morte de David, pois aqui, ele apoia fortemente a tal teoria e se empolga descaradamente com o assunto. Mas, por fim, uma hora a festa termina. Todos vão embora, até mesmo o professor. Só que nem tudo acaba bem e o filme não termina por aí.

Não há mais pistas para serem dadas a você, leitor. Torne-se um espectador desta obra, e consequentemente descobrirá o desenrolar e final desta pavorosa situação. Comentários sobre o filme já foram aqui feitos, e espero que eles o tenham instigado a viajar neste maravilhoso roteiro. Verás por si no que resulta essa hostilidade cruel de um assassinato surpreendentemente feito de maneira apaixonante por dois indivíduos que sentem-se superior a um (conforme Nietzsche) rebanho. Festim Diabólico é um daqueles deliciosos presentes que o cinema nos oferece. Uma porção de suspense feito à moda de um dos maiores diretores que conhecemos.

Juliana Vannucchi