Filme: Filhos da Esperança

Filhos da Esperança

É sempre gratificante ver um diretor desenvolver tecnologia para melhorar a técnica narrativa com o intuito de aperfeiçoar a experiência dos espectadores, como acontece em Filhos da Esperança.

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Os filhos são a nossa continuidade na Terra, eles são nosso maior símbolo de esperança de um futuro melhor. E o que acontece com um mundo sem esperanças? Filhos da Esperança é um filme de drama, ação e ficção científica dirigido por Alfonso Cuáron. Não se sabe o motivo, mas em 2017 as mulheres não conseguem mais engravidar. O habitante da Terra mais novo morreu aos 18 anos e a humanidade discute seriamente a possibilidade de extinção.

Theodore Faron (Clive Owen) é um ex-ativista desiludido que se tornou um burocrata e que vive em uma Londres arrasada pela violência e pelas seitas nacionalistas em guerra. Procurado por sua ex-esposa Julian (Julianne Moore), Theodore é apresentado a uma jovem que misteriosamente está grávida. Eles passam a protegê-la a qualquer custo, por acreditar que a criança por vir seja a salvação da humanidade.

Filhos da Esperança mostra uma perturbação de ordem mundial capaz de alterar o status quo da nossa sociedade. A infertilidade humana é sim uma catástrofe sem precedentes. A função de todo ser vivo é nascer, crescer, se reproduzir, envelhecer e morrer. A partir do momento que perdemos a capacidade de nos reproduzir perdemos um dos sentidos da vida e isso acaba causando a ignição para que os homens percam a esperança com o futuro e abandonem as convenções sociais libertando seu lado mais selvagem.

Entre as diversas perturbações na sociedade que o filme retrata, destacam-se o culto às celebridades e a xenofobia. A primeira é incorporada no fascínio à figura de bebê Diego que nada mais fez do que foi o último bebê a nascer antes que a infertilidade assolasse a humanidade. A xenofobia, por sua vez, é escancarada a partir do momento que as nações entraram e colapso e Londres, segundo seus habitantes se intitula, se tornou a única cidade que conseguiu manter a ordem.

E este cenário apocalíptico nos é mostrado a partir do ponto de vista de um homem comum. Não há grandes explicações científicas sobre as causas de tal perturbação e sim apenas algumas especulações.

O filme ainda se baliza num tripé de 3 ótimas atuações. A sempre regular e acima da média Julianne Moore, o que talvez tenha sido a melhor atuação da vida de Clive Owen; e a carismática presença de Michael Caine emulando o arquétipo de um mentor para Theodore, pois na sua experiência ele faz o elo entre o passado saudoso e o sonho de um futuro onde as pessoas voltem a ter esperança.

Apesar de o roteiro ser aparentemente simples, seu grande trunfo é a dinâmica que sempre mantém os personagens em movimento. E para reforçar este dinamismo temos o largo uso de planos seqüência e câmera em movimento (steady cam). O destaque fica para a cena em que eles estão andando de carro e são interceptados por terroristas.

É preciso ainda elogiar o trabalho de fotografia, o uso das cores e iluminação do renomado diretor de fotografia Emmanuel Lubezki. A impressão é que todos eles foram muito bem pensados para aumentar a imersão na história, inclusive quando sangue e água atingem a câmera. Todos estes pontos mencionados foram desenvolvidos e utilizados como uma forma de aprimoramento da técnica cinematográfica para melhorar a experiência narrativa dos espectadores. Mérito do diretor e sua equipe.

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Zona de Spoilers

É importante salientar que a partir do momento que nos defrontamos com um grande número de animais no filme, podemos concluir que esta foi uma praga humana, uma espécie de castigo dos céus para punir os pecados humanos. E esta não é a única cena onde isso acontece, as referências religiosas estão por toda parte.

Não acredito que o diretor quisesse criar u melo direto do filme com as religiões, mas sim ele se utiliza de referências e símbolos universais como a virgindade de Maria, ou o nascimento de Jesus num celeiro com o intuito de criar significados as cenas a partir de associação e correlação com os signos já conhecidos por grande parte da população mundial.

O final aberto reforça que o sacrifício do protagonista valeu a pena, mesmo que a chegada daquela criança até o navio dos ambientalistas não salve a humanidade. Theodore já vivia sem esperanças no futuro, e por menor que tenha sido sua contribuição, só a chance de talvez salvar a humanidade é algo o qual vale a pena se lutar. E pra você? Aquela criança salvou a humanidade?

 

Trailer

Informações Técnicas

  • Diretor: Alfonso Cuarón
  • Roteiro: Alfonso Cuarón e Timothy J. Sexton
  • Trilha Sonora: John Tavener
  • Diretor de Arte: Emmanuel Lubezki
  • Edição: Alfonso Cuarón e Alex Rodriguez
  • Gênero: Drama, Ação, Ficção Científica
  • Ano: 2006
  • Duração: 1h49
  • Elenco: Julianne Moore, Clive Owen, Michael Caine e Chiwetel Ejiofor

 

Texto inicialmente publicado no Art Perceptions

Leonardo Carnelos

Leonardo Carnelos é engenheiro mecânico aeronáutico, árbitro de tênis e responsável pelo blog Art Perceptions (www.artperceptions.com). Paulista, paulistano e palmeirense, acredita que a vida não faz sentido sem o estudo da Arte.