Crítica: Floresta Maldita (2016)

Poster Floresta MalditaENTENDO QUE EXISTAM ASSUNTOS DELICADOS PARA ALGUMAS PESSOAS. Religião pode ofender minha mãe, mas ela pode não se incomodar com piadas contra gays. Assim como o contrário pode acontecer com minha namorada imaginária. Cada um de nós possui o seu tema delicado e que não há muita tolerância para aceitar ou conversar sobre. No meu caso, nenhum assunto me deixa irritado como abuso de animais, mas existiu um tempo em que falar de suicídio poderia ser um peso.

Floresta Maldita (The Forest, 2016) é dirigido pelo iniciante Jason Zada e explora um local real no Japão para transformar num produto voltado apenas para o lucro, sem qualquer compromisso reflexivo para tratar do assunto com o devido cuidado. Não que eu seja contra fazer um filme de terror sobre a atração que a Floresta de Aokigahara exerce sobre suicidas. O que me deixa chateado é ver um cineasta claramente incapacitado com um roteiro medíocre falando disso para uma quantidade enorme de pessoas e ignorando as suas responsabilidades.

A trama acompanha Sara (Natalie Dormer), uma garota que viaja dos EUA até o Japão para tentar encontrar a irmã gêmea desaparecida. A suspeita principal é que Jess tenha entrado na floresta para acabar com a sua vida, mas Sara sente que a irmã ainda esteja viva e parte numa jornada para resgatar sua parente. Durante o caminho, ela acaba descobrindo que os espíritos que vivem na floresta sentem o medo nas pessoas e usam isso para criar ilusões e fazer com que as pessoas se matem.

Estúpido, né? Pior é que o trailer vendia uma ideia de um bom filme de terror que, no mínimo, respeitasse a nossa inteligência. Floresta Maldita usa e abusa dos malditos clichês (aparições que em questão de três segundos irão se transformar em algo horrendo, com o acompanhamento de trilha sonora ruim). Apesar do terror ser o meu gênero favorito, às vezes cansa tentar descobrir produções obscuras e desconhecidas justamente porque a maioria aposta nos sustos baratos ao invés de trabalhar os seus personagens. O mestre Wes Craven, de Pânico e A Hora do Pesadelo, fazia exatamente o contrário. Sabia como poucos fortalecer os seus personagens e nunca tornar os sustos mais importantes que o desenvolvimento da sua narrativa. Zada deveria assistir a um pouco dos clássicos de Craven para aprender como é que se faz.

Além dos clichês irritantes (mencionei que temos até mesmo aquele momento em que a protagonista prefere correr para o meio da floresta escura do que ficar parada em um ponto seguro? É a versão de Zada para a mocinha dos slashers movies que prefere subir a escada para os quartos do que abrir a porta da sala e correr para a rua), o roteiro é expositivo. É burro. Ao discutir com o seu parceiro, Sara diz que precisa ir para o Japão buscar Jess. “Ela é a minha gêmea.” Por que não deixar o espectador descobrir isso sozinho?

O único mérito de Floresta Maldita é mostrar Natalie Dormer relativamente bem no papel de duas gêmeas com personalidades bem distintas. Nada excepcional que você possa apontar a atriz como uma incrível revelação e que irá vencer um Oscar algum dia, mas é bom conferir Dormer fora do universo de Game of Thrones. De resto, o filme apenas desrespeita um local triste ao usar isso como promoção para um produto ruim. E eu não sei lidar com isso sem ficar irritado.

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.