Crítica: Fogo Contra Fogo, de Michael Mann
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Filme: Fogo Contra Fogo

Michael Mann dirige o aguardado reencontro de Pacino e De Niro nos cinemas num clássico moderno. O texto a seguir possui spoilers.

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ÀS VEZES EXAGERAMOS NOS ELOGIOS PARA DETERMINADAS OBRAS. Tornamos o “genial” banal diante a quantidade de produtos e obras de qualidade que chegam até nossas mãos, olhos e ouvidos nos tempos atuais. Nossa empolgação costuma ofuscar o bom senso e muitas vezes algumas opiniões ultrapassam determinados limites. Ainda que sejam poucos títulos, já aconteceu de lançamento dos últimos cinco anos até entrar em nossa lista de 100 filmes favoritos. Se foi o momento ou não, só saberemos com o passar dos anos. No entanto, para uma obra lançada em 1995, como Fogo Contra Fogo (Heat), não podemos estar mais certos ao afirmar: é sim um clássico moderno, uma obra imperdível do cinema de ação e obrigatória para qualquer cinéfilo que se preze.

Para quem observa por fora, sem ter visto ao filme ainda, o reencontro de Al Pacino e Robert De Niro certamente pode ser um influenciador. Os dois atores trabalharam juntos em O Poderoso Chefão 2, mas não chegaram a contracenar. Esse encontro foi o sonho dos amantes do cinema durante muitos anos e coube ao cineasta Michael Mann realizá-lo. Mestre do cinema de ação e especialista em criar personagens viciados em seus trabalhos, a direção de Mann é o verdadeiro trunfo do longa-metragem. O charme de ter dois dos maiores atores de Hollywood juntos não significa garantia de sucesso (vide o fiasco As Duas Faces da Lei, de 2008), já que eles precisam ser dirigidos por alguém capaz de dar conta de tanto talento em cena e usar isso em favor da própria obra.

Pacino interpreta Vincent Hanna, um agente do Departamento de Roubos e Homicídios de Los Angeles. De Niro dá vida para Neil McCauley, um dos maiores profissionais do crime organizado. O caminho de ambos se encontra a partir do momento em que Hanna passa a investigar um roubo e todas as pistas o levam para o confronto com McCauley. São dois homens inteligentes, talentosos e considerados os “melhores” do seu ramo, e um confronto é inevitável.

É impressionante como Mann consegue introduzir tanta informação útil e desenvolver o background de muitos personagens secundários sem parecer que está apenas enrolando e gastando o nosso precioso tempo. Aliás, vale dizer que são quase três horas de duração de filme. A narrativa é tão eficiente que nem sentimos os 172 minutos. Do lado dos “mocinhos”, uma subtrama é dedicada para desenvolver a enteada de Hanna, que é um dos primeiros trabalhos no cinema da atriz Natalie Portman. A pré-adolescente está deprimida com a ausência do pai e o comportamento passivo da mãe e tenta se matar. Ainda que tenha poucos minutos em cena, é Natalie Portman mostrando que desde pequenininha já seria uma atriz sensacional. A outra trama mostra a esposa de Hanna tendo um caso para encerrar o seu relacionamento morto. O motivo disso não podia ser outro: a dedicação constante do marido para o trabalho e sua ausência na vida doméstica. Já pelo lado dos vilões, acompanhamos o casamento complicado de Chris (Val Kilmer) e Charlene (Ashley Judd), com direito até mesmo a uma atenção especial para que a relação extra-conjugal da esposa tenha uma função importante no roteiro; e Brendan (Dennis Haysbert), que até pode parecer desnecessário com o drama de um ex-presidiário que precisa se contentar com um emprego de merda para um chefe ainda mais bostão, mas é fundamental para outro gancho que define a participação de Trejo (Danny Trejo). Isso só para falar dos coadjuvantes, já que o roteiro apresenta e define muito bem os seus protagonistas.

Somos apresentados a Hanna logo num momento íntimo. Somos voyeurs de uma relação sexual entre marido e esposa e percebemos que a câmera de Mann respeita demais o sexo. É algo sagrado e apaixonado. E assim como na maioria de suas outras obras, não temos nenhum pedaço de carne sobrando ou detalhes que possam dar um ar erótico para a cena. No cinema de Mann, o sexo é poesia. Logo depois da transa, Mann se revela como um homem focado apenas no seu trabalho e que se mantém afastado da família. Um líder nato e com autoridade inquestionável, como podemos ver nas cenas em que coordena seus detetives para investigar as pistas do assalto que inicia Fogo Contra Fogo.

O fetiche de Mann com vilões não poderia ficar de fora do seu clássico. Em muitas de suas obras, o cineasta demonstra sua admiração com o mundo dos criminosos que não são pessoas ruins de fato, mas apenas homens que seguiram os caminhos errados. Nesse ponto, impossível não comparar com John Dillinger (Johnny Depp) em Inimigos Públicos, que provavelmente é um dos principais trabalhos do diretor ao lado de Fogo Contra Fogo. McCauley não chega a ser conhecido e admirado, como Dillinger, mas ele conquista justamente quem importa mais: você, o espectador. Nós o entendemos de imediato. Frio, organizado e metódico, o criminoso gosta de agir de acordo com suas próprias regras para evitar problemas e conflitos desnecessários. E é justamente esse espírito que faz com que ele viva os conflitos que resultam no seu destino. Depois de ser traído por um ex-comparsa (inclusive, vai aqui uma curiosidade sobre Waingro. Na sequência inicial todos os personagens usam máscaras de jogadores hoquéi. No cinema, máscaras de hoquéi lembram o assassino de Sexta-feira 13. E justamente Waingro usa a máscara que mais se assemelha ao clássico do horror e isso nos faz imaginar que talvez ele seja um grande psicopata desequilibrado imediatamente), McCauley vai buscar vingança. Ou justiça, para ser mais justo com os ideais do personagem.

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Como protagonista de Fogo Contra Fogo, os detalhes para entendermos McCauley aparecem aos poucos, sutilmente, mas perfeitos: o filtro azul que domina a cena em que o personagem está sozinho em pé refletindo é importante para isso. O azul aqui significa solidão, a frieza e calma do ambiente – que se você perceber, irá sentir a falta de móveis e qualquer outra coisa que não seja fundamental para a sobrevivência. McCauley é a versão criminosa de George Clooney em Amor Sem Escalas, digamos assim. Ele não precisa de trinta segundos para arrumar as suas coisas e fugir. E em comum com o personagem de Clooney existe uma paixão arrebatadora que o faz questionar suas convicções e passar se incomodar com o vazio em sua vida (como na sequência em que os criminosos estão jantando com suas esposas e McCauley é o único sozinho).

Com dois personagens principais tão fortes e bem trabalhados seria um desperdício que eles não tivessem mais que apenas um duelo final que fatalmente resultaria em morte. O roteiro de Mann nos presenteia com um duelo verbal em que os dois se estudam e demonstram respeito e admiração. Em outra vida, eles provavelmente seriam grandes amigos, mas agora estão em lados opostos e deixam bem claro que no próximo encontro não hesitarão em matar um ao outro. Não tenho certeza, mas talvez o único sorriso verdadeiro de Hanna seja durante a conversa e a maneira como McCauley mexe com ele. É a confirmação de que Hanna é um homem tão concentrado no seu trabalho que apenas ele é capaz de lhe despertar alguma emoção, ao contrário de seu rival, que passa a ter na sua namorada um motivo de experimentar outro tipo de vida.

Há milhares de coisas para serem ditas sobre o longa-metragem de Michael Mann, mas prefiro encerrar com uma besteira bem simples depois de destacar tanto a psicologia dos personagens. Enquanto Waingro está prestes a matar uma prostituta, Mann insere uma das elipses (passagem de tempo em que se omite informações facilmente identificáveis – o exemplo mais marcante é a do macaco jogando o osso para o alto em 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, e depois entra a cena da nave no espaço) mais interessantes que me recordo no cinema: depois de dar a entender que irá quebrar o pescoço da profissional do sexo, o espectador é surpreendido com uma garrafa de cerveja abrindo. Detalhes sutis que justificam todos os elogios para esse filme.

Fogo Contra Fogo é considerado como um dos melhores filmes da década de 1990 (e ficou entre os cinco primeiros na nossa eleição com os principais longas de 1995 – mas você ainda terá que esperar um pouquinho para conferir o resultado completo) e uma das obras obrigatórias do cinema de ação. Assistir ao encontro de De Niro e Pacino sob direção de um cineasta competente como Mann é uma experiência inesquecível. Daquelas que ficam em nossa memória por muito tempo, assim como a vontade de separar um tempinho apenas para rever o filme inteiro.

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Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.