Crítica: Hannibal, de Ridley Scott
Críticas de filmes Destaques Suspense

Filme: Hannibal (2001)

Hannibal-Ridley-Scott-838x563 Filme: Hannibal (2001)
Entre todos os vencedores na categoria Melhor Filme, O Silêncio dos Inocentes segue como aquela que talvez seja a escolha menos usual na história da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, o Oscar. Dentro das estruturas de um thriller, bem como o sadismo explícito que o aproxima do terror, o filme de Jonathan Demme definitivamente era um elemento estranho na 64ª edição da premiação, na qual havia como concorrentes “A Bela e a Fera”, “Bugsy”, “JFK – A Pergunta que Não Quer Calar” e “O Príncipe das Marés”, todos com indícios de formalismo acadêmico.

Dentro ou não de um gênero equivocadamente classificado como pouco sofisticado, “O Silêncio dos Inocentes” mexeu com as estruturas do cinema muito pelo peso psicológico que conferiu à narrativa que circula em figuras disformes, como um doutor detido por atos canibais e um assassino em série que cobiça a anatomia feminina. O pivô é Clarice Starling, a detetive que flagra a própria obstinação em interromper um circo de horrores como um recurso para finalmente superar uma infância de perdas, rejeições e de uma inocência abruptamente dissipada.

É somente alguns dos inúmeros vieses presentes nesta obra-prima de Jonathan Demme, então um diretor afeito a premissas mais descompromissadas. Portanto, como viabilizar a sequência “Hannibal” tendo como garantia apenas a presença de Anthony Hopkins para reprisar Hannibal Lecter? Bem como Demme, Jodie Foster declinou o convite de participar da produção ao considerar o roteiro (não mais escrito por Ted Tally, mas por David Mamet e supervisionado por Steven Zaillian) extremamente violento e pouco cerebral. A teimosia do produtor Dino De Laurentiis foi crucial para reverter as baixas, trazendo a bordo Julianne Moore (“Jodie Foster não é o filme”, teria desdenhado o italiano) como Clarice Starling e Ridley Scott como diretor, tendo o britânico acabado de sair do estrondoso sucesso de “Gladiador”.

É importante fazer essa retrospectiva dos bastidores, pois é preciso ter o conhecimento prévio de que “Hannibal”, ao contrário do “Dragão Vermelho” de Brett Ratner (um ótimo filme, vale salientar), não deseja emular “O Silêncio dos Inocentes”. Não é um contexto para jogos de quid pro quo, Clarice Starling já não é mais uma agente em formação. Tão procurado pelo FBI quanto Osama Bin Laden, é o doutor Hannibal Lecter o protagonista desta história, sendo Clarice apenas uma isca para que Mason Verger (Gary Oldman) possa se vingar por uma relação no passado que teve como resultado a desfiguração de todo o seu rosto.

Portanto, temos aqui uma narrativa que corresponde mais a realidade agora vivida por Hannibal do que de Clarice. É um cenário requintado, com belas locações na Itália, o refúgio que Hannibal adota como lar. Mas há também uma violência gráfica como escolha para respeitar a natureza primitiva que Ridley Scott imagina para esse fascinante personagem, incluindo nela javalis selvagens, bisturis, drogas de efeitos hipnóticos, corpos estripados e um menu final de provocar mal estar.

Como a Clarice Starling é aqui uma agente já integrada às voltas com as frustrações de se dedicar a uma profissão que agora a recompensa com consequências violentas que nenhuma sensação de dever cumprido lhe traz, é esperado que alguma complexidade se dissipe ao rememorar quem ela foi em “O Silêncio dos Inocentes” e o quanto Hannibal Lecter foi um pesadelo necessário para o seu amadurecimento. Por outro lado, o filme ganha em expectativa com isso, pois há inúmeros jogos entre gatos e ratos simultaneamente em curso.

Hannibal Lecter não é caçado somente por Clarice Starling por intermédio de Mason Verger, como também por Rinaldo Pazzi (Giancarlo Giannini), um inspetor da Florença de caráter questionável que associa Lecter ao desaparecimento do curador de uma biblioteca. Um oficial do Departamento de Justiça, Paul Krendler (Ray Liotta), é outro personagem com uma participação decisiva neste círculo, pois suspeita que Clarice esteja omitindo informações sobre Lecter para receber individualmente o mérito em capturá-lo.

Tudo conspira para o reencontro inevitável entre Lecter e Starling e “Hannibal” sabe muito bem como preparar esse momento com voltagem máxima. É como se estivéssemos diante de uma Fera e uma Bela, mas em circunstâncias macabras demais para que uma união se estabeleça. Ridley Scott sabe disso, como é evidente em uma solução pouco fiel ao romance homônimo de Thomas Harris em que um sacrifício reafirma as camadas que compõem dois dos maiores personagens da ficção.

Alex Gonçalves

Jornalista em formação, é editor do Cine Resenhas, no ar desde 2007. Apaixonou-se por cinema aos seis anos ao alugar filmes de terror na saudosa Voyage, começou a pesquisar sobre a linguagem ao conhecer a obra de Brian De Palma e tem uma queda por Nicole Kidman e Parker Posey. É também um leitor voraz e um viciado em música, da erudita ao house.