Crítica: Highlander – Guerreiro Imortal (1986)

Melhores Filmes de 1986 - HighlanderMEMÓRIA AFETIVA AFETA O NOSSO JULGAMENTO? Sim ou não? Na maioria das vezes que assistimos novamente a uma obra vista primeiramente quando éramos crianças/adolescentes, descobrimos que fomos iludidos por anos e que aquilo que parecia tão bom na nossa memória é uma merda completa. Outras vezes, raras, diga-se de passagem, descobrimos que mesmo como cinéfilos mais experientes, determinadas obras superam esse desafio e envelhecem como um belo vinho. Seja como for, definitivamente, Highlander – O Guerreiro Imortal não faz parte desse seleto grupo e é uma das coisas mais deprimentes a que já assisti.

Não quero soar rancoroso ou simplesmente causar polêmica com os fãs do longa-metragem original. Confesso que mesmo detestando o filme, ainda guardo um carinho muito especial por ele. Nasci em 1985 e tive várias chances de assistir Highlander quando era moleque. Fez parte da minha formação e não posso fingir que não aconteceu. Infelizmente.

(Eu provavelmente voltaria no tempo e me daria uns bons tapas: “Moleque! Pare de ver essa porcaria porque isso é ruim. Vá ver a porra do Poderoso Chefão, Era Uma Vez no Oeste e Taxi Driver! Ah, e não escolha fazer publicidade quando virar adulto. Seja esperto e faça engenharia. Ah! E pelo amor de Deus. Não se relacione com nenhuma garota com nome que comece com I, J, K, L, M e N. Elas vão te traumatizar para sempre!” Seria um grande conselho, vejam bem! Mas se isso acontecesse, eu não estaria aqui hoje detonando essa merda de filme.)

Para quem nunca viu e não tem a menor ideia do que se trata, Highlander conta a história de um homem imortal que passa séculos vivendo nas sombras e combatendo outros como ele, pois só pode haver um. Ele começa a ser investigado pela polícia e reencontra com o seu grande inimigo, um psicopata de dois metros de altura disposto a tudo para arrancar a cabeça de Highlander e ser o último imortal da Terra.

Christopher Lambert é um dos piores protagonistas que eu já tive conhecimento. Muitas vezes vejo brincadeiras na internet à respeito da semelhança dele com Thomas Jane, mas quem dera isso pudesse ser aplicado além da aparência física. Faria um bem danado para o Lambert e melhoraria consideravelmente Highlander. O ator aparece em cena com uma cara de cu tremenda e age como se estivesse cagando tijolos o tempo inteiro. Ele não tem nenhuma cena em que consiga transmitir algum tipo de emoção para o espectador. Chega a ser irritante e um paradoxo quando se tem um antagonista forte como Clancy Brown, que vive o vilão Kruger. Não é que se trata de uma atuação digna do Oscar, mas Brown é cínico, cruel e insano do jeito que o seu personagem pede. A gente sente que ele está vivo de verdade, ao contrário da pedra de emoções que é o Highlander.

Poderia ser um desastre ainda maior, mas a breve participação de Sean Connery impõe respeito e eleva o nível da obra em 500% – mas somente durante os menos de 30 minutos em que o ator fica em cena. Connery interpreta o “mestre Yoda” de Highlander e cuida de todas as explicações sobre a imortalidade e inicia um breve treinamento. Tudo é feito com a maior classe e até compensa as fracas coreografias de lutas com espadas.

A trilha sonora com diversas músicas do Queen é a única parte inquestionável da obra. A bela “Who Wants to Live Forever” é emocionante e dá um aperto no coração saber que Freddie Mercury compôs uma canção tão linda para ser usada por um ator com menos expressões que uma parede. “Princes of the Universe” é usada na introdução e até chegou a me enganar momentaneamente na esperança de que o longa-metragem realmente fosse tão bom quanto eu acreditava que fosse. Minha memória pregou uma grande peça!

Highlander é um caso claro de obra que merece demais uma refilmagem. Não apenas os efeitos especiais do original são datados, quanto o próprio filme é bem ruim. Muito disso se deve à horrorosa atuação de Lambert. Apesar disso, continua sendo um clássico que se sustenta por razão apenas do nosso lado emocional de ter visto essa bomba na nossa infância.

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.