Crítica: A Idade do Ouro, de Luis Buñuel
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Filme: A Idade do Ouro (1930)

A-Idade-do-Ouro-716x600 Filme: A Idade do Ouro (1930)
A estreia de Buñuel no cinema foi grandiosa. O cineasta começou sua carreira com Um Cão Andaluz, emblemático curta-metragem surrealista, lançado em 1929. Um ano mais tarde, presenteou o público com mais uma brilhante obra chamada A Idade do Ouro. Tal como no primeiro filme, para esta segunda produção, Buñuel contou com o apoio do amigo Salvador Dalí, que foi quem escreveu a história. Esse filme foi a primeira obra polêmica do diretor que, conforme fez muitas outras vezes em trabalhos posteriores, cutucou impiedosamente dogmas sociais vigentes. A Idade do Ouro ficou apenas seis dias em exibição nos cinemas e foi retirado de cartaz após ser alvo de ataques e críticas de conservadores da época, tendo sido censurado pelo governo francês.

A estética e o roteiro presentes em A Idade do Ouro serviram de modelo para as criações seguintes de Buñuel e, a maior parte da filmografia do diretor (mas não todos), segue mais ou menos as principais características dê seu segundo filme. A narrativa começa com uma sequência de imagens de escorpiões, e um texto que complementa as cenas apresentando as características do animal. A interpretação dessa abertura é feita posteriormente pelo espectador que, com o decorrer do tempo, nota semelhanças entre os hábitos dos escorpiões e os costumes da elite. São feitas descrições como: ”Despeja veneno”, “amigo da obscuridade”, “pouco sociável, ele rechaça quem vem perturbar sua solidão”. E a ideia do roteiro ela clara: que a carapuça servisse para exemplificar a burguesia. A cena seguinte, apresenta um homem que caminha em meio ao deserto e que passa por um grupo de religiosos. Ou seja, logo no começo do filme (dez primeiros minutos) já extraímos dois elementos notórios: a religião e a classe média alta (representada de maneira cruel e simbólica pelos escorpiões). Esse desfecho já revela a tonalidade áspera que o restante do filme terá, sendo sempre preenchido por um caráter onírico (como, por exemplo, uma cena na qual vemos uma vaca dormindo numa cama). Referências a temáticas sexuais também se mostram constantemente, e de maneira descarada. Isso porque no desenrolar da história, vê-se um casal sempre tentando consumar um ato de amor, e sempre sendo interrompido. O resultado dessa repressão de seus desejos é uma personagem chupando o dedo de uma estátua ou um personagem sempre relacionando tudo o que vê à fantasias sexuais.

Nesse filme, Buñuel, com coragem, esbanja ousadia. Pincela sua obra com marcas típicas de seu cinema revolucionário e agressivo, marcado por uma estética surrealista e por textos e premissas críticos. Fundamental para mergulhar e tentar compreender o legado deste grande artista. Corrosivo demais para sua época, fundamental até os dias atuais.

Juliana Vannucchi