Filme: Joy – O Nome do Sucesso

Publicado originalmente no blog O Pipoqueiro.

Joy destaque

Repetindo a colaboração pela terceira vez, o diretor, roteirista e produtor David O. Russell reencontra parte do elenco de O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook, 2012) e Trapaça (American Hustle, 2013) para mais um trabalho: Joy: O Nome do Sucesso (2015). Seguindo dois longas fracos, este novo consegue ficar em último, repetindo os lugares-comuns e o otimismo bobo que têm se tornado marca de O. Russell, que anda bem distante do tipo de humor e cinismo divertido que marcou o início de sua carreira. E este filme teve menos reconhecimento nas indicações a premiações que os anteriores, o que mostra que a paciência com Russell tem chegado ao fim.

Praticamente uma história de auto-ajuda para empreendedores, inspirada na vida da empresária americana Joy Mangano, Joy acompanha a jovem protagonista (Jennifer Lawrence) quando ela, ainda aos 25 anos, está separada, numa situação familiar complicada, sem perspectivas financeiras e com dois filhos para criar. O caos! Cuidando de todos à sua volta, Joy ainda tem tempo para ter ideias de produtos que poderão revolucionar o mercado. Isso, se ela conseguir uma oportunidade para lançá-los. E se seus parentes pararem de se intrometer na sua vida. Com uma mãe apática (Virginia Madsen, de O Reencontro, 2012) e uma avó motivadora de saúde delicada (Diane Ladd, da série Enlightened), seus problemas principais residem no pai (Robert De Niro), um sujeito estourado cheio de preconceitos, e na meia-irmã (Elisabeth Röhm, de A Bela e a Fera), uma invejosa que sempre tenta levar vantagem.

Joy é uma mulher forte, que se recusa a aceitar o papel de vítima, por mais que fique abatida em alguns momentos. Apesar da obviedade e chatice do roteiro (de O. Russell e Annie Mumolo, de Missão Madrinha de Casamento, 2013), este é o tipo de personagem que pode ser um presente para um ator. Se tudo é muito convencional, os diálogos são quadrados e não há muita chance de fugir do caminho previsto, a qualidade do intérprete aparece. E Jennifer Lawrence leva o trabalho a sério, principalmente durante as dificuldades enfrentadas em cena. É graças a ela que o resultado não é pior. Joy consegue ter nuances interessantes, com suas atitudes e expressões, e Lawrence acerta o tom na maior parte do tempo. Apenas caminhando para o fim a atriz parece um pouco perdida quanto ao que fazer. E as mudanças bruscas da personagem não ajudam. Ela às vezes é uma menina desamparada, noutras é uma leoa que fará o impossível.

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A De Niro e Isabella Rossellini (de O Homem Duplicado, 2013), que vivem o pai de Joy e a namorada, cabem personagens intragáveis, que você torce para passar a vida sem encontrar. Bastante formulaicos, têm diálogos pavorosos e suas ações mudam com o vento, de acordo com a situação, e chegam a dar raiva, tamanha a estupidez. Sobra para Edgar Ramirez (de Livrai-nos do Mal, 2014) e Dascha Polanco (de Orange Is the New Black), o ex-marido e a amiga de Joy, apoiá-la, o que eles fazem dentro das possibilidades do roteiro. O outro grande nome do elenco é Bradley Cooper, que aqui encara uma participação menor que nos outros filmes do diretor, apenas mostra a cara e dá um alô. O suspense feito na hora de revelá-lo é incompreensível e ele some tão logo não seja mais necessário.

O diretor imprime no longa um clima de novela nada sutil, e já sabemos que virá um dramalhão pela frente. Com a mãe de Joy acompanhando uma novela padrão, é como se O. Russell não confiasse em seu espectador e tivesse que explicar tudo detalhadamente, e essa irritação é recorrente durante as duas horas de exibição. Se a intenção era fazer um filme bonitinho, motivacional, o máximo que ele conseguiu foi criar uma obra sem ritmo, cheia de mudanças bruscas, que deixa o público ansiando pelo fim.

Marcelo Seabra

Além de colaborar no Buteco, Marcelo é editor do blog O Pipoqueiro (blogs.uai.com.br/opipoqueiro), comentarista no podcast do Cinema em Cena e onde mais o chamarem. Busca sempre manter alto o volume de filmes e séries vistos e está sempre ouvindo música. Dos anos 60, de preferência.