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Crítica: Kalifornia (1993)


CHAMA MUITA ATENÇÃO ACOMPANHAR A ATUAÇÃO DE DAVID DUCHOVNY EM KALIFORNIA (1993), de Dominic Sena. O ator aparece com uma cara de criança que chega a nos assustar, afinal boa parte dos leitores do Cinema de Buteco estão numa faixa de idade que permitiu assistir parte de Arquivo X e depois Californication, quando ele aparece como um homem – e não um garoto. De qualquer forma, essa é uma observação pessoal que não consegui evitar.

Esse road movie comandado pelo mesmo responsável por 60 Segundos (aquele mesmo com a Angelina Jolie e o Nicolas Cage) apresenta um casal de artistas viajando por locais famosos pelos crimes que lá foram cometidos. Para arcar com os gastos, Brian (Duchovny) e Carrie (Michelle Forbes) fazem um anúncio para procurarem companhia. Nisso entra em cena o casal caipira Adele (Juliette Lewis) e Early (Brad Pitt), que é um psicopata doido de dar nó.

Sim. Kalifornia é sobre um casal que estuda psicopatas e visita locais mórbidos, e acabam dando carona para um assassino cruel sem terem a menor ideia disso. Puta coincidência, hein?

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O enredo nos faz lembrar de Amor a Queima Roupa, de Tony Scott, e Assassinos por Natureza, de Oliver Stone. Mas fora uma participação de Pitt no primeiro e a presença de Lewis como protagonista no segundo exemplo, o que pesa mais é a ausência de um roteiro/história assinado por Quentin Tarantino. Felizmente, isso não depõe contra a obra. Kalifornia funciona muito bem como um road movie de suspense por causa do desenvolvimento de seus personagens, principalmente o psicopata Early.

Não é injusto dizer que Brad Pitt é o que torna Kalifornia especial. Cheio de trejeitos afetados que demonstram a fragilidade psicológica de seu personagem, Pitt dá um show para os espectadores. São por trabalhos assim que o ator merece respeito e admiração. Muito curioso perceber que ele funciona bem melhor quando interpreta tipos esquisitos, como em Os 12 Macacos, O Clube da Luta e (principalmente) Queime Depois de Ler. Lewis também impressiona com a sua inocente Adele, uma vítima dos abusos do marido e tão burrinha que dá pena.

Early se garante como um dos psicopatas mais marcantes do cinema por sua aparente normalidade. Ele é um caipira machista e grosseiro, intelectualmente atrasado, mas capaz de sustentar as mentiras mais improváveis e cometer ações de extrema violência. Interessante como a sexualidade afeta o seu comportamento, como podemos perceber no terceiro ato, quando ele deixa todos os manequins em posições sexuais. Mas o grande trunfo do roteiro é manter Early como uma nuvem misteriosa ao não cair na tentação de explicar as suas motivações.

Kalifornia é um prato cheio para fãs de road movies e filmes com psicopatas. Não é por acaso que ele faz parte do nosso guia definitivo sobre o assunto. Com personagens cativantes e cada um deles com histórias muito bem desenvolvidas, o longa-metragem acerta em cheio ao não priorizar a violência gráfica e se tornar apenas mais uma obra no meio de tantas outras. Se você gosta de suspenses de qualidade, Kalifornia vale a sua atenção.

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