Crítica: A Lenda de Tarzan, de David Yates
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Crítica: A Lenda de Tarzan (2016)

poster-a-lenda-de-tarzan-202x300 Crítica: A Lenda de Tarzan (2016)Era uma vez um lorde inglês chamado John Clayton III. Mas antes de ser lorde, ele é um homem; e antes de ser homem, ele é um animal! É dessa animalidade que nasce a história de Tarzan, o Homem Macaco — e é sobre essa mega produção que vamos falar hoje.

Para quem espera que esse filme seja mais um remake da história que já conhecemos — ou uma versão live action da animação clássica lançada pela Disney, em 1999 — aqui vai a primeira dica: não é! A Disney vem apostando muito nessa linha e, se posso dizer, acho que vem acertando cada vez mais: se você assistiu aos filmes Malévola, Cinderela e o recente Mogli, o menino lobo, você sabe do que eu estou falando.

Acontece que A Lenda de Tarzan não é um filme produzido pela Disney, apesar da semelhança e do uso de algumas cenas desse clássico. Ele é da Warner e o diretor é ninguém menos que David Yates, o mesmo que ficou responsável pelos últimos filmes de Harry Potter — já dá para imaginar a pegada um pouco sombria e mega sensorial do filme, certo?

Baseando pelo trailer apresentado, não dá para saber a trama que envolve, de fato, o filme, que é o retorno de Tarzan à África — mais especificamente ao Congo —, supostamente para servir de emissário de comércio do Parlamento inglês. Mas, na verdade, o que o motiva a realmente voltar à selva é a suspeita de um esquema de escravização e tráfico dos negros africanos. Por causa desse foco, os diálogos e o modo como a história se apresenta — em meio a flashbacks e alguns detalhes subentendidos —, A Lenda de Tarzan não é ideal para crianças, que correm o risco de não entenderem muito bem o que se passa no filme, além de poderem se impressionar muito com algumas cenas.

Bom, apesar da volta à África por questões políticas ser a trama global, um filme desses não poderia deixar de ter o conhecido grito do homem selvagem, balanços no cipó entre as árvores da floresta e, é claro, a paixão entre Tarzan e Jane, atendendo às expectativas dos fãs da história que conhecemos. Contudo, por mais que essa paixão seja o pano de fundo para a continuação da trama, o filme obtém êxito em não deixar um clima romântico demais no ar. Além disso, não espere que esse Tarzan seja apenas um selvagem que não sabe viver em civilização — essa imagem é quebrada logo de cara, nos primeiros minutos do filme.
Se por um lado o filme acertou em cheio e usou muito bem seu orçamento de R$180 milhões com efeitos visuais, cenas de aventura e ação, cenário e fotografia impecáveis, sem falar nas atuações icônicas e previsíveis de Christoph Waltz como o vilão frio, perverso e cínico e de Samuel L. Jackson como um personagem encorajador, além, claro, de ser ele o que temos para chamar de núcleo cômico do filme — o que não tira nenhum mérito, pelo contrário, o reforça —, por outro lado, o filme analisado individualmente (sem as referências das antigas versões de Tarzan) não apresenta Alexander Skarsgard ou Margot Robbie como personagens memoráveis de Tarzan e Jane, uma vez que não mostra a progressão do Tarzan enquanto rei das selvas — ele já vem pronto. No entanto, isso não muda o fato de que ambos representaram muito bem a selvageria e a determinação esperada, respectivamente.

Falando na determinação da Jane, vale a pena ressaltar que conseguiram fazer uma personagem feminina forte, inteligente e determinada, que não perde a feminilidade em nenhum momento, o que vem a ser uma conquista e tanto para o papel das mulheres no cinema.

O filme pode parecer um pouco exagerado demais para algumas pessoas, afinal, mesmo um homem criado na selva tem suas limitações, e as brigas que Tarzan vence nesse filme são dignas do que se espera dos aclamados super-herói. Mas ele pode, ele é o homem macaco, ele é o Tarzan, o rei da floresta, assim como Edgar Rice Burroughs idealizou há pouco mais de um século ao criar esse personagem! Essa representação satisfaz tanto aos fãs quanto a quem não se interessa tanto pela história do homem da selva.

Há também quem sinta falta de uma reflexão mais profunda e atualizada da crítica imperialista que ronda a história (um homem rico e branco é que salva os negros africanos e lidera todos os bichos da floresta). Mas em quesito de experiência sensorial, A Lenda de Tarzan nos fornece o que podemos chamar de um verdadeiro espetáculo, recheado de tensão e adrenalina do início ao fim. Deu vontade de gritar junto com o Tarzan em alguns momentos? Sim, deu! Quem sabe na próxima eu tenha coragem — porque sim, esse é um filme que merece ser visto mais de uma vez, se possível, no cinema.

Maria Thereza Pinel

Dizem que fujo um pouco dos padrões: sou destra, mas seguro o garfo, copo e cigarro com a mão esquerda; entrei na faculdade de física, mas estou formando em literatura; sou fotógrafa, mas escrevo críticas de arte — cinema, teatro e literatura. Choro em todo filme da Disney/Pixar. Tenho 24 anos e uma filha de 6. Sei usar uma furadeira e dobrar lençol de elástico. Torço pro Arizona Cardinals e gosto de brigadeiro, hambúrguer, Modern Family, Backstreet boys e Pokémon. Prazer!