Crítica: Mad Max - Estrada da Fúria, de George Miller
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Filme: Mad Max: Estrada da Fúria (2)

“Vibrante. Mad Max: Estrada da Fúria é a ópera selvagem da brutalidade.”

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É perfeitamente cabível afirmar que, entre os títulos consagrados de décadas passadas, Mad Max era provavelmente aquele que mais merecia passar por um processo de revitalização. É justo afirmar que, mesmo precisando ser repensado, o longa original representou um marco no Cinema e, desde seu lançamento, foi uma fonte da qual beberam quase todos os projetos de temática pós-apocalíptica. Dito isto, é revigorante chegar à conclusão de que esta revitalização, Mad Max: Estrada da Fúria, consegue superar suas nascentes.

Os primeiros instantes de projeção, realizando a contextualização, extremamente dinâmica, rápida e explosiva, revelam o tom que George Miller viria a tomar durante as duas horas seguintes que passaríamos apreciando sua obra – o realizador parece ter rejuvenescido durante estes trinta anos que se passaram. Uma voz segura estabelece o primeiro contato de Max Rockatansky (Tom Hardy) com seu público, ainda de costas, avistado através do que aproxima-se de um contra-plongée; um plano aberto de fotografia extremamente saturada ambienta o palco, desertificado e sem sinais de civilização. Max distancia-se rapidamente em seu veículo. Instantes depois, um grupo selvagem, com ainda mais velocidade, toma a mesma direção. Nada mais era necessário. Já havíamos sido apresentados àquilo que viríamos – e desejávamos – a acompanhar.

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Embora a ambientação da trama seja integralmente voltada a uma abordagem utópica, futurista, pós-apocalíptica, não há a necessidade de entregar-se a absurdos. Desde o conhecimento que tomamos da organização de toda aquela selvageria em sua época, podemos perceber um assustador espelho brutalizado de nossa realidade, também repleta de individualismos e da constante luta por posses e recursos capitalizados. Aliás, este futuro retratado aproxima-se ainda mais de nossa experiência como a repetição de um passado distante, no resgate dos modos de vida primitivos, a desertificação do ambiente e a necessidade de luta diária por sobrevivência. A única diferença gritante reside no fato de que, quando o futuro chega, tal modo de vida torna-se bem mais difícil, pois, passados os processos de civilização e estruturação capitalista do meio, a exploração massiva e exacerbada dos recursos de nosso planeta, este escassou-se, e aos “loucos” sobreviventes, restou lutar por suas sobras. Assim, o caos.

Neste retrato é notável como, além de brilhante como narrativa vibrante, brutal e explosiva de ação, Mad Max: Estrada da Fúria ainda consegue traçar uma perspectiva ideológica, ou na mais reducionista das definições, tem “algo a dizer”, não reservando-se à pura ação desenfreada. Se, em determinado momento, uma anciã comenta sobre o passado da região do Vale Verde – “lá, cada um tinha sua parte, e assim, ninguém precisava matar” -, há um comentário sobre a prosperidade antes existente graças a uma estruturação socioeconômica igualitária, esquartejada pela vindoura luta por posses, exploração descontrolada dos recursos naturais e, então, um cenário anárquico sem regulamentações. Está impresso no desenvolvimento central de sua trama, no entanto, um dos principais responsáveis pela evidência de um ideário progressista na obra: a narração de uma jornada de luta contra uma hierarquia exploratória machista – com personagens femininas fortíssimas – é um sopro de feminismo numa Hollywood que, ao contrário da progressão temporal, não consegue livrar-se das amarras conservadoras do passado, mantendo o estabelecimento de heróis sempre serem homens e relegando às atrizes o papel de vítimas a serem salvas. Sopro que ganha importância ainda maior no cenário atual de avanço das ondas conservadoras, no qual tantos brindam à uma relação de opressão a um gênero, demonizando movimentos feministas.

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Ainda assim, é inegável a dificuldade de refletir sobre qualquer coisa por alguns instantes, quando se está pilhado, com os olhos vidrados e, provavelmente, suando na ponta da poltrona – é necessário preparar-se, então, pois se você for um apreciador do Cinema, passará assim boa parte de sua sessão. Protagonizada integralmente por seres humanos habituados à uma realidade de crueldade e baixíssima tolerância, a trama justificadamente trabalha com uma escassez de diálogos, sobretudo partindo de seu solitário e calado protagonista. As exposições de conflitos são raras – assim, não nos aprofundamos nos dramas de qualquer personagem, mas suas lutas jamais deixam de soar legítimas (sobretudo as do grupo de personagens femininas) -, a edição trabalha com apenas alguns flashes para expor o passado de Max – evitando exageros expositivos e estabelecendo com eficácia referências sutis aos títulos da trilogia original -, e a estruturação da micro-sociedade comandada pelo canalha Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne) é brevemente apresentada por um discurso do mesmo. Tudo isto abre espaço para partirmos num road movie de ação, uma jornada eletrizante, envolvente e exaustiva – jamais cansativa, diga-se -, dividida em sequências longas. A fotografia de John Seale deliciosamente abusa de cores saturadas, iluminação intensa e uso de planos abertos, evitando esconder a ação – ainda assim, é eficiente no estabelecimento de um clima sufocante, apropriando-se da violência seca como o ambiente desertificado -, criando um clima de contraste ainda mais forte com as sequências passadas numa escuridão tempestuosa, as mais sombrias da narrativa. A trilha sonora de Junkie XL (que neste ano já havia realizado um trabalho competente em Noite Sem Fim), carregada, acompanha o tom grandioso do que está sendo narrado. A ação é incessante, tensa e divertidamente exagerada.

Esta não seria minimamente envolvente, no entanto, se nas prolongadas e grandiosas perseguições e situações de risco não estivessem envolvidas personagens pelas quais nada sentíssemos além de apatia. Por sorte, não estamos falando de um novo Transformers, mas de Mad Max: Estrada da Fúria, e neste projeto, o realizador importa-se mais com suas personagens do que com o tamanho das explosões que filmará. Para assegurar isto, ao menos dois membros do elenco destacam-se: Tom Hardy e Charlize Theron. Num trabalho sutil e extremamente competente, aquele equilibra a força de um herói de ação com expressões extremamente sensíveis de vulnerabilidade e desconhecimento perante situações de estranheza, humanizando seu personagem, enquanto esta constrói sua Imperatriz Furiosa com uma força admirável, mas capaz de expor uma faceta calejada por tanta violência e injustiças presenciadas, necessitando de um esforço emocional para não deixar que esta supere a esperança na busca de uma realidade melhor. Nicholas Hoult, imagino que desacreditado por muitos cinéfilos, é competente o bastante para nos fazer acreditar numa mudança de certa forma repentina no comportamento de seu Nux. Se não tiver conseguido, a vibração provocada por uma sequência na qual Furiosa e Max, juntos, atiram freneticamente, o fará.

Vibrante. Mad Max: Estrada da Fúria é a ópera selvagem da brutalidade.

Leonardo Lopes

Estudante de Jornalismo, cinéfilo, marxista e um aspirante à admiração da Sociologia. Ou nada disso.
Colunista do Cinema de Buteco e membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.