Crítica: Miami Vice, de Michael Mann
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Filme: Miami Vice

Miami Vice review

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JÁ OUVIU FALAR QUE O DONO DA BOLA MANDA NO JOGO? Michael Mann foi um dos criadores da série Miami Vice, na década de 1980, e nessa releitura lançada em 2004, a narrativa é completamente transformada cultivando apenas o cabelinho “vintage” cheio de mullets do herói vivido por Colin Farrell. A mudança não ficou por conta apenas das mudanças visuais, mas também pela pegada mais fria e adulta que transformam essa releitura numa das principais obras do cinema de ação nos anos 2000. A expansão é tamanha que ação sequer ocorre apenas em Miami.

A trama apresenta a velha dinâmica de dois policiais com personalidades opostas, mas que se entendem muito bem nas ruas. Ao contrário do que Richard Donner criou na franquia Máquina Mortífera, Miami Vice não abre espaço para piadas que possam abalar o clima sombrio e de perigo iminente que cerca a narrativa. Ainda assim, podemos observar que há um certo eco do que Mel Gibson e Danny Glover criaram juntos. Talvez seja algo extremamente pessoal, vai saber. De qualquer forma, Sonny (Farrell) é o policial que nos minutos iniciais já se estabelece como um mulherengo; Ricardo (Jamie Foxx, trabalhando com Mann pela segunda vez consecutiva) é o policial mais centrado e responsável, mas igualmente eficiente. A sintonia da dupla é colocada a prova quando precisam se infiltrar numa quadrilha para prender um traficante pica das galáxias.

Em seus filmes anteriores, Mann privilegiou sequências com diálogos poderosos entre seus personagens. Como esquecer o primeiro “confronto” de Al Pacino e Robert de Niro em Fogo Contra Fogo (Heat, 1995)? Miami Vice não nos oferece esse deleite, mas ainda assim consegue se sustentar como uma obra de ação inteligente que não apela para o senso comum dos tiros, perseguições e a tradicional pancadaria. Sim, os policiais socam seus inimigos, mas tudo dentro da evolução natural das cenas e perfeitamente aceitáveis. Outra característica marcante do cinema de Michael Mann é o tom documental da fotografia e em diversos momentos a câmera segue os personagens.

Aliás, não podemos falar da fotografia sem mencionar a sequência de tiroteio nos momentos finais da produção. Após se envolver amorosamente com a mulher-objeto do vilão principal (uma bela caracterização, diga-se de passagem, já que personagem assusta sem precisar apelar para a violência. Mann precisa apenas de algumas cenas para convencer o espectador de que aquele cara é o cão chupando manga, e faz isso com sucesso), Sonny se encontra dividido entre fazer o que é certo e o que deseja. A fotografia mostra uma metade do rosto do ator completamente escurecida, enquanto a outra está totalmente visível. Esse detalhe sutil mostra a dualidade de Sonny e as dúvidas que pairam em sua cabeça. Mais sutil ainda é o momento em que o personagem de John Ortiz (numa versão cover do político Jean Wyllis) recebe um belo close para explicar mais sobre as suas emoções: ao observar Sonny pegando a mulher do chefe, ele fica com os olhos marejados. Numa tacada só, Mann nos diz: agora sabemos que ele é apaixonado pela personagem de Gong Li e que ele está mais puto da vida ainda com Sonny – e com motivos. A partir dessa cena, o roteiro mergulha em sua reta final com uma virada que deixa todos os personagens em risco.

A trilha sonora chama a atenção com três canções do Audioslave, sendo que “Wide Awake” é a mais importante. Sonny está dentro do carro esperando sua amante chegar, mas eles precisam manter as aparências para ninguém saber que eles estão se pegando. (Na verdade, me questiono se isso realmente importa. O vilão dá tanto medo que dificilmente algum capanga teria a coragem de dizer: “Véi, c é corno…”) Na medida em que a sequência vai avançando, percebemos a troca de olhares e – provavelmente é a melhor cena de Miami Vice inteiro – quando os vidros do carro estão levantados e Sonny retira os seus óculos do rosto, dá quase para ouvir o desespero que toma conta do casal e como eles transam como animais. Infelizmente, Mann não mostrou pedaço de carne de nenhum dos dois, como é comum em sua filmografia a nudez não interessa muito.

Miami Vice entrou no nosso ranking de melhores filmes de ação dos anos 2000 numa posição de destaque, reforçando a influência de Michael Mann no cinema contemporâneo e a sua capacidade de produzir obras que fiquem marcadas na memória dos cinéfilos. Para todos os efeitos, mesmo longe de ser um longa-metragem perfeito, Miami Vice acerta muito mais do que erra, e para os fãs do gênero cansados de produções bobas e sem graça, é uma ótima pedida.

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.