Crítica: Mortdecai (2015)

FUI ASSISTIR À COMÉDIA MORTDECAI COM OS DOIS PÉS ATRÁS e tive uma surpresa. Os entusiastas da falta de emoção, aqueles que preferem uma vida sem desafios, aqueles que menosprezam quem entra numa sessão nutrido das mais diversas expectativas certamente terão a oportunidade de dizer: “não avisei?”, afinal é realmente interessante quando não temos nem ideia do que esperar e acabamos surpresos. No entanto, mais gostoso ainda é gastar duas horas do dia disposto a saber que irá se arrepender e ter uma recompensa.

O grande motivo da desconfiança era ninguém menos que Johnny Depp. O astro está num momento meio tenso em sua carreira e com escolhas excessivamente infantis (ou medíocres), além de insistir na praga do pirata Jack Sparrow. Já deu, cara! Afoga o ganso em outras ilhas, afogue-se no rum, mas aceite que não tem mais a mesma graça. Ver Depp encabeçando uma comédia não foi lá muito atraente e dada a recepção fria que o filme recebeu (e o pouquissimo tempo que o mesmo permaneceu em cartaz nos cinemas brasileiros), cogitei até mesmo pular a obra na minha lista de lançamentos da temporada. Por acaso, mudei de ideia. E me dei bem.

Depp está hilário no papel de um excêntrico negociador de arte. Cultivando um poderoso bigode, do qual se orgulha muito apesar da rejeição da esposa vivida por Gwyneth Paltrow, Mortdecai é obrigado a ajudar um investigador (Ewan McGregor) a encontrar uma pintura desaparecida e extremamente valiosa. No elenco ainda temos Paul Bettany interpretando um guarda-costas (uma alusão ao personagem de Bruce Lee no clássico Besouro Verde). Parte do sucesso do filme é realmente a química e simplicidade com que o elenco carrega a narrativa, que é engraçadinha com diverso momentos divertidos, mas bem longe de nos fazer pensar muito ou refletir sobre a obra. Isso é ruim? Óbvio que não. Se você se diverte, qualquer coisa está valendo.

Mortdecai talvez seja uma daquelas comédias idiotas e nonsense que um dia ganharão o seu devido reconhecimento. Despretensiosa e deliciosa do começo ao fim, mesmo com a direção de David Koepp, a produção faz piadas leves e sutis (como o protagonista insistindo em chamar os Estados Unidos de colônia – o que reforça a essência do personagem e seu distanciamento da realidade e bom senso), e não parece se importar com absolutamente nada. O roteirista (e agora diretor) Koepp se preocupou apenas em filmar um roteiro sem ter o espírito megalomaníaco de imitar David Fincher ou Steven Spielberg. Em sua investida na adaptação dos livros do personagem Mortdecai foi bem feliz.

poster Mortdecai

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.