Críticas de filmes Destaques Drama Romance

Filme: O Amor é Estranho

Love is trange

O amor sobrevive a tudo? Será que, após quase 40 anos juntos, um casal consegue superar a distância por um acaso do destino? No comovente O Amor é Estranho (Love Is Strange, 2015), acompanhamos dois homens que precisam viver separadamente em função de problemas financeiros e que veem suas vidas mudarem completamente por causa disso.

O filme começa com o casamento de George (Alfred Molina) e Ben (John Lithgow) e mostra o quanto ambos são amados e admirados pelos parentes e amigos. Porém, quando George é demitido de seu trabalho como professor em uma escola católica, eles não têm condições de pagar o apartamento em que vivem e precisam morar em locais diferentes até que encontrem um novo lar. Mesmo com o imenso amor que sentem entre si, essa transformação os afeta bastante, além das pessoas à sua volta. Enquanto um passa a viver na casa do sobrinho Elliot (Darren Burrows), junto de sua esposa Kate (Marisa Tomei) e o filho adolescente Joey (Charlie Tahan), o outro dorme no sofá do casal de amigos policiais Ted (Cheyenne Jackson) e Roberto (Manny Perez), os quais não têm muita noção do que é tranquilidade.

Quatro décadas é muito tempo. Imagine então que, depois disso tudo, sem contar o casamento, ambos têm que enfrentar o desafio de viverem em locais diferentes e adaptar-se a um cotidiano totalmente diferente do que tinham antes? O filme de Ira Sachs mostra claramente as dificuldades de cada um em lidar com isso e o tanto que sofrem com a distância. Se George é quase que invisível para Ted e Roberto, Ben não tem a paciência ou atenção de Kate e Joey (Elliot mal para em casa). Definitivamente, não é fácil viver assim.

Por outro lado, no caso de Ben vemos que, mesmo sendo indesejado, ele afeta as pessoas em seu novo lar. A mulher mostra o seu lado impaciente ao ter que tomar conta da casa sozinha enquanto o marido trabalha o dia todo, e o jovem tem o típico comportamento de uma pessoa de sua idade: quer ter sua privacidade e o tio de 71 anos não permite isso. Muitas vezes é duro ver essas cenas, mas, de certa forma, conseguimos nos identificar porque um dos problemas que os idosos mais sofrem é justamente a falta de paciência e atenção. Em uma cena, Joey é totalmente agressivo a Ben ao vê-lo pintando o amigo. Ele diz ao tio que é um péssimo artista e, que se realmente fosse bom, não estaria dormindo no beliche dele. É de partir o coração.

Algo interessante que o longa explora é como as pessoas ficam diferentes quando convivem por mais tempo. Se, no início, todos pareciam grandes amigos, companheiros e tudo mais, no desenrolar da história percebemos que o convívio não é às mil maravilhas. O que não deixa de ser verdade porque sabemos muito bem que existem pessoas que se dão muito melhor vendo-se pouco do que diariamente; a rotina nos surpreende!

O roteiro deixa a desejar na falta de uma maior exploração na vida da família de Elliot. Fica mais do que claro que os três não se comunicam direito, o pai trabalha demais, a mãe sente falta do marido e compensa isso trabalhando o tempo todo, e o filho sobra ali. Ben observa o que acontece, mas não tem coragem de se intrometer e os poucos diálogos que temos deixam um fim inconclusivo. O foco na relação do tio com Joey é bastante interessante, mas ele ficou tão superficial que tira todo o potencial de impacto que o desfecho tinha. Não deixa de ser emocionante, mas podia ter sido mais.

Em relação aos policiais, o excesso de festas prova que não têm intenção alguma de adaptar seu cotidiano por causa de George, mas o papel deles é quase que figurante. Mindy (Christina Kirk), amiga que vive em Poughkeepsie, é uma completa inútil na história, nem sei para que foi inventada ou mencionada se aparece duas vezes no filme todo, sem falar nada de importante.

Apesar de algumas falhas de desenvolvimento de personagens, O Amor é Estranho conta uma bela história de amor, com atuações comoventes de Molina e Lithgow, totalmente convincentes do início ao fim. O drama também não peca com previsibilidade (você vai pensar várias coisas na sua cabeça, mas o roteiro vai te surpreender!) e tem uns toques leves de humor para quebrar o gelo. Por tocar em temas tão universais como amor e família, com certeza vai se conectar com os espectadores e lhes fazerem refletir sobre o assunto.

Daniela Pacheco

Fascinada por cinema desde pequena. Ídolos? River Phoenix, Audrey Hepburn, Wagner Moura e Marion Cotillard.