Crítica: O Discreto Charme da Burguesia (1972)

Durante sua brilhante carreira no universo cinematográfico, Buñuel carregou uma característica comum em grande parte de suas produções: a postura crítica. E geralmente, esta era explicitamente endereçada à classe média alta e a procedimentos sociais padrões (como Igreja, casamento etc).  Ele foi um diretor cuja tendência artística costumava estar voltada aos conceitos e traços do Surrealismo, uma escola de arte vanguardista que se destacou na década de 20. Assistir a um filme de Buñuel sem ter em mente essa influência, costuma resultar em frustração por parte do espectador.

O filme O Discreto Charme da Burguesia, um de seus maiores sucessos, une os dois componentes anteriormente mencionados: o surrealismo e a crítica. Buñuel amarrou esses aspectos em seu roteiro através da história de um grupo de amigos burgueses que sempre tentam se reunir para jantar, mas são interrompidos por algum acontecimento surpreendente e extremamente inesperado. Em certa ocasião, por exemplo, quando estão preparados para a refeição, descobrem que um velório está acontecendo na sala ao lado – o fato tira-lhes o apetite. Em outro momento, o encontro do grupo é repentinamente interrompido por um treinamento militar. E dessa maneira, seguem-se as frustradas tentativas de uma reunião entre amigos que planejam seus jantar, mas que nunca os concluem.

Temos seis personagens que protagonizam o longa dentro do quadro acima citado. Todos pertencentes à classe média alta. E todos eles são vítimas dessa sucessão de fatos absurdos, embora, curiosamente, eles não hajam ou reajam com estranheza diante dessas ocasiões, permanecendo sempre serenos, como se tudo fosse natural. Buñuel amarra sequências de vivências cotidianas com imagens oníricas (sonhos e pesadelos) e improváveis que vão proporcionando certas consequências ao grupo de amigos. Dentro deste cenário fantasioso, podemos extrair e perceber ácidos julgamentos à classe privilegiada que é apresentada de como sendo fútil e dissimulada.

Essa charmosa sátira de Buñuel é um de seus mais importantes legados porque possui sua marca, sua assinatura singular que até hoje influencia muitos outros diretores de cinema. E uma porta de entrada ao mundo que esse gênio criou. Buñuel esbanja críticas ácidas aos hábitos burgueses e é impiedoso para expressar sua visão quanto a essa classe social. O filme venceu o Oscar na categoria de “melhor filme estrangeiro (França)” e foi indicado ao prêmio na categoria de melhor roteiro original.

Juliana Vannucchi