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Filme: O Expresso do Amanhã

O Expresso do Amanhã crítica

Tilda Swinton é uma atriz impecável. Seja qualquer o papel, ela sempre dá uma performance acima da média. No entanto, ao assistir O Expresso do Amanhã (Snowpiercer, 2013), quem rouba a cena a meu ver é outra pessoa: Chris Evans. Em uma aventura ambientada num futuro no qual toda a humanidade vive em um enorme trem, o ator mostra que deve ser mais levado a sério; temos aqui a melhor atuação de sua carreira, em uma adaptação excepcional de Bong Joon-ho da graphic novel Le Transpercerneige, escrita por Jacques Lob e Jean-Marc Rochette.

O enredo é o seguinte: em 2014, após um experimento que dá errado e provoca uma era do gelo que elimina quase toda a vida na Terra, os seres humanos restantes encontram-se no enorme trem Snowpiercer. O veículo, desenvolvido pelo poderoso Wilford (Ed Harris), funciona através de um eterno motor e dá diversas voltas pelo mundo. O problema é que ele é dividido por um sistema de classes, com os mais ricos na parte da frente do trem e os mais pobres na parte de trás. Dezessete anos depois, após várias rebeliões, as coisas prometem mudar de vez quando uma revolução liderada por Curtis Everett (Evans) e Gilliam (John Hurt) toma forma.

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O longa não falha em um minuto sequer e é praticamente impossível tirar os olhos da telona, seja em função das eletrizantes cenas e ação, seja em função de diálogos primordiais, os quais nos ajudam a compreender o que se passa lá dentro e a história dos personagens. Os combates são contagiantes a cada cena, especialmente uma em que tudo fica escuro em função de um túnel e somente os guardas e a ministra Mason (Swinton) conseguem enxergar com os óculos de visão noturna que possuem. Quando não temos brigas sangrentas – e Joon-ho faz questão de mostrá-las com detalhes – o roteiro nos oferece ricas conversas, as quais são responsáveis por nos contextualizar sobre o passado de cada indivíduo. Em duas oportunidades, Evans dá um show de atuação ao revelar o sofrimento e desespero de Curtis com tudo o que viveu nos últimos 17 anos e o que estava enfrentando ali.

A maneira que o diretor revela a desigualdade social dentro do veículo também é espetacular. No começo, temos uma ideia disso ao ver Claude (Emma Levie) chegar à ala dos miseráveis, uma vez que ela usa roupas limpas, um grande casaco amarelo (a cor provavelmente foi intencional, para dar um forte contraste em relação aos tons escuros do local) e tem uma aparência extremamente saudável. Os demais, com exceção dos guardas, estão sujos, mal vestidos e sobrevivem com blocos pretos de proteína periodicamente, ou seja, alimentam-se muito mal. A partir do momento que a rebelião ganha força e consegue caminhar até os primeiros vagões, vemos a mudança dos cenários, tanto em relação às cores quanto à decoração e figurino dos habitantes. Tem jardim, aquário, restaurante japonês, escola, piscina, boate, dentista, quartos e por aí vai. Bizarro e revoltante.

Assistindo à isso, além da maneira repressiva e cruel que os pobres são tratados – um deles, Andrew (Ewen Bremner), tem o braço direito colocado pra fora do trem por sete minutos, o mesmo é congelado e em seguida os guardas o quebram com um machado -, o espectador junta-se a eles em sua missão e ela o deixa à flor da pele o tempo todo. Swinton interpreta com primazia Mason, que sempre tem um discurso pronto para justificar suas atitudes e vê com prazer a repressão de sua segurança. Octavia Spencer, Jamie Bell, Song Kang-ho e Go Ah-sung também dão excelentes atuações. O grande vilão, Wilford, é visto por pouco tempo, mas Harris sabe usar como ninguém o breve período que tem na telona. Suas falas mostram muito bem quem ele é e como ele as interpreta é sensacional.

Snowpiercer é uma ficção original, eletrizante e muito bem desenvolvida. Não comentarei aqui das diferenças em relação à graphic novel francesa porque a leitura do cineasta sul-coreano é completamente diferente; ele criou uma nova história e novos personagens, basicamente mantendo o trem como cenário. Mesmo com tais mudanças, ele conseguiu elaborar um enredo cativante, o qual com certeza vai agradar os fãs da obra. A discussão em torno da desigualdade, poder e sobrevivência é bastante interessante.

E, convenhamos, chegou a hora de vermos Evans em um papel que não seja de Capitão América ou um cara sensível em uma comédia romântica. Ele é muito mais o que um rosto bonito.

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