Crítica: O Preço de um Resgate (1996)

A quinta entrada da série especial com a filmografia de Ron Howard continua com um review de O Preço de um Resgate, estrelado por Mel Gibson em 1996:

O Preço de um Resgate

FILMES SOBRE SEQUESTROS SEMPRE ME INTERESSARAM BASTANTE. Gosto da dinâmica dos sequestradores com as suas vítimas, com os negociadores, e especialmente com eles mesmos. É tão comum assistirmos a filmes que glamourizam o crime, mas os sequestradores acabam ficando em segundo plano quando comparados com os ladrões de banco ou mafiosos em geral. Em O Preço de Um Resgate (Ransom, 1996), Ron Howard não faz muito diferente do que estamos acostumados, e sem deixar o espectador confundir quem são os verdadeiros heróis da história, cria um clima tenso e sufocante com um rapto cheio de reviravoltas.

Tom (Mel Gibson) é um ricaço da indústria da aviação. Num belo dia, durante um passeio, o único filho de Tom é sequestrado e então começa uma angustiante troca de telefonemas, ameaças e de pedidos de resgate. Quando começa a acreditar que os sequestradores irão matar seu filho, Tom começa a ter atitudes desesperadas para mostrar que está disposto a ir bem longe para garantir o resgate do primogênito.

Existe um enorme orgulho a ser superado pelo personagem de Gibson. Quando permite que os agentes do FBI participem da negociação e sofre o primeiro fracasso na entrega do dinheiro, Tom decide assumir tudo sozinho e opta por desafias todas as sugestões do policial encarregado. É como se todo o dinheiro que possui em suas contas bancárias fosse o bastante para transformá-lo em uma espécie de Deus intocável. O excesso de confiança de Tom não chega a receber o apoio da narrativa, que muitas vezes mostra atitudes completamente irresponsáveis e repreensíveis do personagem, mas no final das contas, o filme recompensa toda essa marra com um final feliz. Claro que não poderia ser diferente, já que estamos falando de Mel Gibson na época em que ainda era um galã queridinho em Hollywood e do diretor de O Grinch, mas a impressão que fica é que o protagonista sofreu apenas um grande trauma e não aprendeu muito com isso.

Assim como em Apollo 13, Ron Howard aproveita as brechas para fazer críticas ao poder da mídia e o comportamento dos telespectadores. Ainda que não seja o tema de O Preço de um Resgate, o diretor se delicia ao mostrar Tom entrando ao vivo na televisão e oferecendo um resgate milionário para aquele que denunciasse o paradeiro dos sequestradores do seu filho. Ou seja, ciente do desejo voraz do público por sangue, tragédia e violência, Tom usa o seu principal recurso (dinheiro) para comover o máximo de pessoas possíveis e desequilibrar o ambiente entre os sequestradores, imaginando que uma traição pudesse acontecer diante tanto dinheiro. Howard possui um verdadeiro fetiche com assuntos relacionados à cultura de massa e explora isso de maneira mais aprofundada em EdTV, 1999, filme que lançou três anos depois.

O Preço de um Resgate é um dos trabalhos mais interessantes da carreira do cineasta e também de Mel Gibson. Howard sabe conduzir suas obras com calma, sem nunca tornar o ritmo arrastado ou atrapalhar os momentos de maior tensão que deixam o público arrepiado temendo que uma tragédia aconteça. Não é por acaso que esse filme entrou no nosso ranking de melhores obras de 1996 – em breve no ar. Caso seja fã de produções que falem sobre sequestros, recomendo fortemente.

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.