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Crítica: Quarteto Fantástico (2015)

Poster Quarteto FantasticoReboot de Quarteto Fantástico cumpre bem o seu trabalho de apresentar os personagens e garante a diversão, independente de não oferecer nada de novo para os espectadores.

Os heróis da Marvel iniciaram seu “plano de dominação” mundial dos cinemas timidamente. Antes de Blade – O Caçador de Vampiros (1998) e X-Men (2000), praticamente apenas a Warner Bros. se arriscava a colocar personagens das HQ’s nas telonas. Pelo menos até o fiasco de Batman e Robin (1997). A invasão foi lenta. Após a Fox investir numa continuação para X-Men, foi a vez da Sony arregaçar as mangas e usar os direitos do Homem-Aranha. E então Christopher Nolan foi contratado pela Warner para recuperar o Homem-Morcego nos cinemas e tudo mudou para sempre depois que todos os estúdios perceberam o potencial as adaptações de quadrinhos. Mas nem sempre é um caminho muito fácil.

O Quarteto Fantástico, por exemplo, é uma história curiosa. Em 1994, eles tiveram o seu primeiro longa-metragem. Acontece que o resultado foi considerado extremamente bizarro e ruim, o que deixou a produção engavetada e sem lançamento oficial. Onze anos depois, a Fox decidiu que apenas o sucesso dos X-Men não era o bastante e lançou o primeiro filme do Quarteto Fantástico. Chris Evans, que hoje é famoso como o Capitão América, ainda era um jovem em ascensão e foi escalado na pele do Tocha-Humana. Jessica Alba, Ioan Gruffudd e Michael Chicklis completavam a equipe interpretando Mulher-Invisível, Sr. Fantástico e Coisa, respectivamente. Dois anos depois, a aventura prosseguiu com uma continuação (bem superior, apesar disso não significar que seja um elogio) e nunca mais se falou em Quarteto Fantástico. A visão do estúdio sobre os personagens não agradou aos fãs e a crítica ficou muito menos impressionada. Ou seja, um fracasso.

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Com o crescimento absurdo do estúdio da Marvel e a qualidade inquestionável de todos os seus lançamentos, a expectativa era que a Fox perdesse os direitos de uso do Quarteto Fantástico e que eles pudessem voltar para o lugar a que pertencem. Infelizmente, ainda teremos que esperar um pouco para apreciar as aventuras da equipe no universo da Marvel e num possível encontro com os Vingadores e outros grandes personagens da editora, como o Homem-Aranha, por exemplo. Por outro lado, com esse reboot que acaba de ser lançado nos cinemas brasileiros, temos a chance de apagar da memória os desastrosos primeiros filmes e torcer para uma sorte melhor dos heróis nas bilheterias.

Dirigido por Josh Trank (Poder Sem Limites), a produção até flerta mais descaradamente com o universo sci-fi, mas não passa de uma grande história de ação e aventura. Logo de cara somos apresentados a um jovem Reed Richards (Miles Teller, de Whiplash) que desde cedo se mostrou como um cara arrogante e ambicioso. O filme já ganha os espectadores aí. Com essa construção meio íntima da infância, dos medos, desejos e da amizade com Ben Grimm (Jamie Bell, de Ninfomaníaca – Volume 2). O tempo avança e a narrativa introduz sutilmente Sue Storm (Kate Mara, da série House of Cards) e Johnny Storm (Michael B. Jordan, de Poder Sem Limites), e o vilão Viktor Von Doom (Toby Kebbell). Acompanhamos o trabalho desses jovens gênios da ciência e suas experiências para criar uma máquina de teletransporte que dá muito errado e muda a vida de todos para sempre.

A narrativa é simples demais e bem desenhada para quem ainda não tem experiência para estudar desenvolvimento de personagem. Reed é desde cedo colocado como um garoto inteligente e ambicioso, mas um pouco covarde. Ao ser flagrado tentando roubar peças no ferro velho da família de Ben, ele grita: “por favor, não me mate.” Por ser uma criança, a gente até aceita isso. Mas quando encontra o seu melhor amigo transformado em um monte de pedra, o que é que ele faz? Foge. Tudo bem, afinal ele precisou tomar uma decisão difícil pensando em qual seria o seu passo para resolver o problema no futuro. Quando ele reaparece, está mais maduro e usa a inteligência (que é o seu verdadeiro poder) para evitar o “fim do mundo”. Por outro lado, podemos criar um pouco de caso com o desenvolvimento do vilão. Desde cedo apresentado como um personagem ainda mais inteligente que Reed e também apaixonado por Sue, a gente não se sente convencido por suas motivações. Dá para entender que a sua solidão na Terra foi curada ao se tornar parte de um outro mundo, mas ainda assim é como se faltasse algo. O grande problema poderia ser reconhecido na personagem de Kate Mara. A única coisa “boa” que ela faz é ouvir “Roads”, do Portishead. De resto, é uma coadjuvante de luxo e que é ofuscada por todos os outros personagens.

O reboot está longe de ser um filme genial ou que realmente acrescente algo na nossa vida de cinéfilo, mas não ficou inferior às coisas que a Marvel vem apresentando com seus trabalhos mais recentes. Os efeitos especiais são bem eficientes e a concepção do Coisa nos faz lamentar profundamente a impossibilidade de um confronto contra o Hulk. E se tratando do elenco, são cinco jovens talentosos que certamente terão uma carreira muito interessante, especialmente Teller e Jordan.

Apesar da recepção inicial bastante negativa do público, Quarteto Fantástico já tem uma continuação programada para daqui a dois anos, além de um rumor sobre um encontro com os X-Men. Afinal, acabou aquele mundo em que os estúdios acreditavam que cada herói vivia num mundo único em que nunca poderiam se encontrar. O grande imbróglio para esses momentos estão justamente fora das telas, nos direitos de imagem que a Marvel tenta fortemente recuperar para colocar todos os seus personagens sob a sua asa criativa. Vamos torcer para que novos acordos, como o realizado com a Sony para a utilização do Homem-Aranha, aconteçam em breve para que os fãs realmente possam ter acesso às adaptações completas e livres das complicações judiciais.

Texto publicado originalmente em Shortlist.com.br

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