Filme: Relatos Selvagens

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NA SELVA DA HUMANIDADE.

Francamente, frustra-me profundamente a ideia de ter que iniciar este texto produzindo uma abordagem temática sobre Relatos Selvagens, relatando – perdão pelo semi-trocadilho – sua estrutura narrativa dividida em segmentos e a abordagem temática de cada um deles, aproximando o leitor um pouco mais desta retomada de experiência. Frustração esta causada não por aquela sensação de uma obrigação editorial que me reaproximaria de uma experiência desagradável, não; ao contrário, na verdade é alimentada por um profundo sentimento de entusiasmo e inspiração artística e emocional provocado pela pela obra, o que me faz não querer dissertá-la como uma produção em suas vertentes, erros e acertos do desenvolvimento artístico e técnico, mas de forma que revele-a como a experiência emocional, sensitiva e provocadora que ela é. Creio ter alcançado meu objetivo inicial.

Primeiramente, é fundamental observar que dificilmente encontraremos um ser humano que não identifique-se com o retratado por Relatos Selvagens em ao menos uma – embora seja aplicável a todas – de suas tramas – e caso conheça um, eu recomendaria que se afastasse do mesmo. Situações enervantes são uma parte inerente ao cotidiano de todo cidadão – e nossas reações perante a estas, com base em nossas experiências vividas, são aquilo que nos moldará. Mas a narrativa vai além, e proporciona ainda maior identificação por utilizar-se daquilo que está ainda mais inerente à vivência humana do que as próprias situações cotidianas: os anseios não alcançados. Diante das tais situações, parte deles são colocados em prova. A cada situação adversa enfrentada, somos capazes de imediatamente imaginar uma série de possíveis reações a esta – posteriormente, é provável que executemos a mais cautelosa, e possivelmente menos impactante.

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Os seis segmentos formadores da fita pautam-se em torno desta temática – quatro destes seguem uma linha mais descontraída, os outros dois abordam-na de maneira mais densa -, povoando cada um deles com personagens comuns a quem cabe a realização destes anseios – torna-se real aquilo que é normalmente apenas imaginado. Diretor e roteirista da produção, Damián Szifrón trabalha-a com um admirável senso de unidade narrativa. Todas as personagens do longa são absolutamente humanas, cujas decisões – embora exageradas, para gerar o humor da trama – são pautadas em situações de causa e consequência, atos de nervosismo compreensíveis, por mais chocante que seja concluir isto. O texto possui o cuidado de manter uma sagaz ambiguidade ideológica – enquanto corrobora com o princípio humano de Rousseau, ao levar suas personagens a agirem violentamente como consequência da influência do meio, também constrói-as com um instinto selvagem em sua essência e que, nestas situações, apenas externa-se -, embora explorando-a para diferentes ambições narrativas.

Szifrón prova-se um realizador ainda mais coerente quando notamos suas ambições narrativas trabalhando a favor de mensagens ideológicas, tornando-a um trabalho artístico em seu poder integral. Enquanto uma obra reveladora da selvageria humana de maneira perspicaz e corajosa, revela-se, paralelamente, contestadora de muito daquilo que foi criado por esta como espécie. Desde o terceiro segmento, a observação de um comentário sutil a respeito da luta de classes, colocando em prova nosso próprio sub-julgamento entre dois indivíduos de condições econômicas extremas; no segmento que o sucede, surge um posicionamento mais evidente sobre a opressão cotidianamente imposta pelo Estado sobre cada cidadão – o personagem de Darín observa-se obrigado a agir violentamente após uma série de episódios nos quais vive injustiças mas não pode reagir a estas, uma vez que está aprisionado aos dogmas legais. Nos dois segmentos finais, é possível notar uma contestação extremamente ácida às instituições familiares – o pai protege o filho acima de tudo, mas apenas por manter a imagem de sua família; posteriormente, ele despe-se de qualquer intenção de proteger seu herdeiro ao priorizar suas posses materiais -, geridas inicialmente pela instituição matrimonial – o episódio final, então, prova-se inteligentíssimo neste sentido: desde as sequências iniciais do casamento, a fita narra o evento com extremo cinismo, denunciando como aquelas cerimônias são, no fundo, todas uma celebração à imagem e às relações de falso amor familiar, e depois, a cerimônia acaba findando num ato explosivo de honestidade que coloca em prova todo aquele experimento sentimental.

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Ainda mais importante é notar como o longa transmite todas estas mensagens jamais deixando a atenção do espectador perder-se – as explosões instintivas, a sagacidade do olhar sobre os atos; tudo isto proporciona ao público um misto de tensão e comicidade que torna a sessão uma das melhores experiências de entretenimento do ano. Acima dos objetivos ideológicos da produção, reside um experimento narrativo de notável qualidade: Relatos Selvagens despe-se do conceito de heróis e vilões, ganhador e perdedor, colocando suas personagens numa constante inversão de lideranças onde jamais somos capazes de prever quem sairá por cima – os embates entre os motoristas e entre os recém-casados são provas finas disto -, por mais que, entre estas situações, possam surgir determinados momentos de conveniência ou certa previsibilidade, porém jamais atrapalhando aquela provocação que recebemos com prazer.

Afinal de contas, Relatos Selvagens é o cotidiano numa constante catarse.

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Leonardo Lopes

Eu já sabia que ia terminar assim. Estudante de Jornalismo (FAAP-SP). Tenho o Cinema e a comunicação como grandes (únicas?) paixões. Marxista e pessimista. Saudosista e louco.
Colunista do Cinema de Buteco e membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.