Filme: Rocky: Um Lutador

Rocky

FALAR DE GRANDES CLÁSSICOS DO CINEMA AINDA É UMA COISA QUE ME INTIMIDA. E olha que ao longo dos oito anos de vida do Cinema de Buteco (e de quase 1000 críticas escritas), tive que aprender a vencer esse medo e ter a coragem de analisar obras obrigatórias para a bagagem de qualquer cinéfilo e crítico de cinema. Rocky: Um Lutador (Rocky), de 1976, é um desses casos. Foram anos enrolando, mas agora chegou a hora da verdade e de encarar o desafio.

Vencedor de três Oscars, incluindo diretor e filme, Rocky conta a história de um boxeador amador que recebe uma oportunidade única de deixar o anonimato para desafiar o grande campeão dos pesos pesados Apollo Creed na disputa pelo cinturão da categoria. O roteiro escrito por Sylvester Stallone foi responsável por uma das 10 indicações que a produção recebeu ao Oscar na ocasião.

Uma sacada de mestre de Stallone foi criar um personagem capaz de causar uma rápida identificação entre o público. Todos nós gostamos de acompanhar as carreiras de pessoas humildes que superam grandes desafios para se tornarem vencedores em suas vidas e Rocky é a encarnação perfeita do “vira-lata” que deixa as ruas para ganhar o mundo. Não é a toa que durante metade do longa-metragem, Avildsen se preocupa em estabelecer o personagem com todos os seus defeitos, deficiências e qualidades. Rocky é claramente um homem que se sente deslocado do mundo real. Sozinho e cheio de valores conservadores, acompanhamos suas investidas desastradas em Adrian (Talia Shire), uma garota tímida por quem ele sente enorme afeição. Quando finalmente consegue conquistar Adrian, temos a primeira vitória de sua vida, e então está tudo preparado para entrarmos na etapa de preparação para o confronto com o grande campeão.

Além dessa preocupação com a contextualização de Rocky (e não posso deixar de citar o trabalho de Stallone na expressão corporal do personagem, que mesmo quando está andando pelas ruas age como um autêntico lutador), outro mérito da produção é o trabalho de montagem com o treinamento do boxeador e a passagem de tempo até o dia da luta. A mesma estratégia foi usada exaustivamente em todos os outros filmes da série, mas tudo começou aqui e contou até com o reconhecimento da Academia, já que a dupla Richard Halsey e Scott Conrad foram agraciados com o Oscar de Melhor Montagem.

O adversário Apollo Creed (Carl Weathers) demonstra uma arrogância extrema e uma certeza absoluta de que é imbatível. Uma das grandes mensagens do roteiro de Stallone é a necessidade de trabalhar duro, respeitando as outras pessoas e buscando o seu espaço através do próprio esforço. Na maioria das vezes que Apollo aparece em cena, ele age como um empresário engravatado preocupado apenas com a grana que irá receber pela luta. Paralelamente, acompanhamos Rocky treinando duro para se preparar para não fazer feio diante o campeão. Curioso que anos depois, ao dirigir Rocky III, o roteiro colocaria o próprio Rocky na posição de empresário que perdeu a fome de vitórias.

Um dos maiores problemas de toda a franquia Rocky são as coreografias das lutas. Com algumas poucas exceções, todos os confrontos são superficiais e deixam muito a desejar. E pelo amor de Deus! Não venham defender dizendo que “na época era assim”. Soco é soco em qualquer período da história. Quando se trata de boxe, não queremos ver troca de carícias ou tapas. Felizmente, Rocky é um filme sobre um boxeador e não sobre o boxe em si, o que acaba tornando possível relevar a completa falta de qualidade das lutas. O que acontece dentro do ringue não importa: nossa atenção deve estar em como é que Rocky chegou até lá e toda a sua preparação.

Que mané “Eye of the Tiger” que nada. Essa música não é ouvida em momento algum da obra, ao contrário do que muitos pensam. O Survivor só emprestou a sua canção para a franquia em Rocky III – O Desafio Supremo e Rocky IV. O tema principal de Rocky é “Gonna Fly Now”, de Bill Conti. A canção se tornou um verdadeiro hino de motivação para esportistas em geral, justamente por nos fazer lembrar imediatamente dos esforços de Rocky para se preparar para a grande luta. Até quem nunca viu o filme consegue sentir esse clima de superação. Como um apaixonado por música que já escreveu em diversos textos que um longa-metragem precisa ter uma música marcante para se tornar excepcional, Rocky não deixa a desejar nesse quesito.

Rocky é provavelmente o melhor filme sobre boxeadores já produzidos em Hollywood (chupa, Scorsese!) e uma aula de cinema para todos aqueles que são apaixonados pela sétima arte ou pelo prazer de assistir a uma boa história. Com uma direção segura, um roteiro básico e atuações eficientes, Rocky se garante como uma combinação perfeita de obra de arte com entretenimento puro. Para quem ainda não teve a oportunidade de conferir, fica a minha dica pessoal de parar de enrolar e mudar isso hoje mesmo.

  • Felipe Everson

    No interim dessa disputa, fico do lado do Scorcese. Rocky foi uma tremenda decepção pra mim

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.