Filme: Tempestade de Gelo (1997)

Tempestade de Gelo

NADA MELHOR QUE UMA BOA E VELHA REUNIÃO DE FAMÍLIA. Em Tempestade de Gelo (The Ice Storm, 1997), Ang Lee nos leva para um feriado de Ação de Graças no ano de 1973, em pleno escândalo de Watergate, e nos apresenta para duas famílias problemáticas, cujo único detalhe em comum que os pais compartilham com seus filhos é o interesse em buscar experiências sexuais.

Kevin Kline e Joan Allen (excelente) vivem Ben e Elena Hood, pais de Paul (Tobey Maguire) e Wendy (Christina Ricci). Jamey Sheridan e Sigourney Weaver (provavelmente em um de seus papéis mais sensuais) interpretam Jim e Janey Carver, pais dos jovens Mikey (Elijah Wood) e Sandy (Adam Hann-Byrd, de Jumanji). Esses são os oito personagens do drama familiar de Ang Lee e estão todos muito conectados.

Tempestade de Gelo trabalha com diversos arcos de histórias ao longo de sua narrativa, algo bem parecido com o que o cineasta Paul Thomas Anderson apresenta em Magnólia e tantos outros diretores costumam fazer em suas obras, como é o caso de Babel, de Alejandro González Iñárritu. O diferencial é que Ang Lee ainda estava começando a trabalhar no mercado norte-americano de cinema para construir a sua carreira e se arriscou logo com uma complicada trama cheia de detalhes e sutilezas. Felizmente, ele não se complicou e conseguiu dar destaque para todos os personagens.

Me chama a atenção observar Wendy. Ciente que o relacionamento dos pais está em crise, a adolescente usa seu tempo para acompanhar a queda de Nixon pela televisão e dizer verdades dolorosas sobre os índios no meio do almoço. Wendy também brinca com os irmãos Mikey e Sandy, ambos apaixonados por ela e dispostos a participar daquelas “inocentes” experiências sexuais de quem está curioso em descobrir o corpo do outro. Wendy parece uma autêntica capricorniana desprovida de emoções e manipula cada um dos irmãos buscando saciar apenas a sua própria curiosidade e esquecer do seu lar prestes a desmoronar.

Gosto também do arco de histórias de Paul, que aparece logo de cara como um jovem maconheiro com um amigo da onça que “rouba” todas as garotas por quem ele se apaixona. Como eu mesmo já estive na pele de Paul e vi “amigos” usando o meu interesse por alguém para ficar com essa pessoa, acaba sendo difícil não se identificar. O coitado do Paul está com uma queda por uma jovem (Katie Holmes) e até acredita que irá se dar bem desta vez, mas acaba preso na (maldita) friendzone quando ela diz que ele é como um irmão.

Sobre os adultos é interessante observar uma versão primitiva do que se tornaria o swing ou a troca de casais numa infame “festa das chaves”. Cada homem deixa a chave do seu carro dentro de um pote e no final da festa, as mulheres pegam uma destas chaves e voltam para “casa” com o dono dela. Tempestade de Gelo acontece exatamente no período em que a revolução cultural, com a liberdade sexual em alta, começava a modificar para sempre o comportamento das pessoas. A ideia de transar com alguém fora do casamento, e com o consentimento, é excitante para esse grupo suburbano e hipócrita. Os homens agem como hienas prestes a encontrar uma boa alimentação (inclusive lamentando quando uma mulher com ossos largos escolhe uma das chaves) e as mulheres estão simplesmente se deliciando com a chance de fazer algo diferente. Nisso, o casal Hood, que vive uma crise causada pelo desinteresse sexual de Elena e o caso extra-conjugal de Ben com Janey, é um dos únicos a ficarem desconfortáveis com a situação.

Elena se torna a personagem mais interessante de todo o filme graças a atuação incrível de Joan Allen e a maneira como a narrativa vai derrubando todos os suportes dela aos poucos. Sem interesse em sexo, já que também não parece perceber que despertou um interesse sexual no padre cabeludo, Elena acaba cedendo para uma transa patética dentro do carro de Jim apenas como um ato de “justiça” para vingar a traição de seus respectivos conjugues.

Importante notar a importância do título, que faz uma metáfora com a frieza das relações dessas pessoas e até mesmo da sociedade em geral. Preocupados apenas com seus próprios desejos e necessidades, as famílias retratadas estão perdidas e incapazes de olharem uns para os outros. Não por acaso, o trem em que Paul está durante a sua volta para casa para e os trilhos ficam congelados. Então temos o grande acontecimento do terceiro ato e o trem finalmente volta a se movimentar, mantendo todo o clima gelado que permeia toda a produção.

Ang Lee acerta em cheio ao cuidar desses oito personagens e seus respectivos conflitos na busca por serem pessoas melhores ou mais felizes. Apesar de uma tragédia meio que desnecessária, mas compreensível e aceitável considerando o descaso dos pais com os filhos, Tempestade de Gelo é um desses produtos sobre relacionamentos indispensáveis para o público cinéfilo ávido pelo tema. E se tem uma coisa que Ang Lee sabe fazer muito bem em seus filmes é trabalhar sutilmente a psicologia dos seus personagens, como ficou provado ao longo de sua carreira.

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.