Filme: Tirando o Atraso

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HÁ LINHAS DE PRODUÇÃO CÔMICA voltadas exclusivamente à produção de entretenimento e, bem, risadas ao público – não há (quase) nada de mal nisso como Cinema, desde que, claro, estas produções contem com alguns pontos minimamente competentes do ponto de vista de realização artística, como a presença de um roteiro razoavelmente coerente, personagens cativantes, e a ausência de ofensas à humanidade do público, por exemplo. É Arte, afinal – embora muitos enxerguem insistentemente apenas como entretenimento, o que não é Cinema; é, porém, uma de suas muitas virtudes.

Partir do ponto de uma jornada de redenção moral é outra das propostas infinitamente repetidas na história da produção audiovisual estadunidense e, embora também não seja nenhuma novidade, decidir apropriar-se de sua estrutura para subvertê-la do ponto de vista de conteúdo é a ideia ao menos interessante adotada por Tirando o Atraso. O neto “coxinha” – sejamos francos e verossímeis, ora – Jason Kelly (Zac Efron) precisa de uma certa colaboração do controverso avô Dick Kelly (Robert De Niro) para não arruinar sua vida naquela que seria, do ponto de vista materialista e imagético atualmente predominante no convívio social, uma decisão de ouro, que o manteria “nos trilhos do sucesso” até o final de sua existência. Se esta representaria de fato algo positivo, depende do ponto de vista – no deste que vos escreve, está bem mais próxima da absoluta e brindada mediocridade, que hoje a muitos agrada.

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Desta maneira, ainda que não apresente muito mais em termos de conteúdo a manifestar, Tirando o Atraso ganha pontos por, ao menos, tentar apresentar alguma contestação ao status quo do americano médio estabelecido, que se não atinge as mais profundas camadas, é capaz de suscitar algum tipo de pensamento neste sentido – afinal, estamos realmente vivendo como gostaríamos ou apenas cumprindo fases estabelecidas por aquilos que nos cerca?. Uma pena, então, que esta mensagem ideológica da obra seja movida por um sujeito que, se ganha nossa simpatia imediata por ser vivido por Robert De Niro, ainda passaria por despejar algumas ofensas a negros e homossexuais – não espanta que tenha sido um glorioso membro dos Boinas Verdes durante a Guerra do Vietnã.

Claro, não apenas o caráter do coprotagonista incomoda; pelo contrário, nem passa perto do incômodo provocado pela infinidade de conveniências da qual se apropria o roteiro de John Phillips para dar continuidade à trama – passando por um estado no qual os mesmos dois policiais cobrem todos os territórios, pela identificação automática do número de celular de um sujeito recém-encontrado (mesmo nos tempos do abuso de acesso à informação pessoal protagonizado pela internet, soa demasiadamente inverossímil), até a desatenção de um sujeito que, embora tenha sido membro honorável do exército, não percebe quando vasculham seu bolso à procura de seus documentos, entre outros momentos. Há quem defenda as conveniências como “muletas compreensíveis” na realização de um roteiro; o que está errado – ao contrário dos clichês, ainda aceitáveis por, afinal, serem partes incontestáveis de nossa própria existência, utilizar-se em excesso das conveniências não soa verossímil de modo algum, sendo apenas um escape dos mais sorrateiros daquele roteirista pouco habilidoso que busca aproveitar-se do intelecto de seu público-consumidor.

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Ainda assim, é praticamente impossível não se envolver com a relação desenvolvida entre os dois protagonistas, a qual trata de uma divertida inversão de valores diante daquilo com que estamos acostumados no Cinema estadunidense – aqui, o mais velho é o agente causal moralmente subversivo, e o jovem é o elemento passivo, aquele que, deslocado, sofre o necessário para a realização de novas experiências. Na relação estabelecida entre a dupla protagonista reside o embrião das gags mais eficientes do projeto – o contraste entre o desconforto de Jason e a persona dominante de seu avô só é possível graças à muito boa química existente entre Efron e De Niro; e se o segundo continua participando de projetos que estão aquém de sua carreira, ao menos mostra-se suficientemente à vontade neste papel -, explorando um humor de situações improváveis que, este sim, consegue normalmente driblar as conveniências com sequências de fato divertidas – aquela envolvendo uma abelha e uma criança, e a do avô com a universitária numa balada, são especialmente dignas de nota. Entre o elenco coadjuvante, essencial no gênero normalmente como a tradicional “escada”, mas roubando a cena quando existe a possibilidade, é válido destacar os esforços de Aubrey Plaza – sua dinâmica de cena com Robert De Niro é inusitadamente eficiente -, Adam Pally e, sobretudo, – acredite, você já o viu antes e, aqui, ele validará suas lembranças.

Desde que dotasse de um roteiro mais focado em desenvolver estas situações inegavelmente divertidas com as quais conta de maneira mais coerente, Tirando o Atraso poderia ir além de uma comédia bacaninha com algo a dizer – especialmente se não fizesse o desnecessário uso de um lema militarista para justificá-lo. Hipotético.

Tirando-o-Atraso-Poster Tirando o Atraso

Dirty Grandpa – EUA – 2016

Direção: Dan Mazer

Roteiro: John Phillips

Elenco: Zac Efron, Robert De Niro, Aubrey Plaza, Zoey Deutch, Jason Mantzoukas, Dermot Mulroney, Julianne Hough, Adam Pally

Estreia nacional: 04 de fevereiro de 2016, nos cinemas

Leonardo Lopes

Eu já sabia que ia terminar assim. Estudante de Jornalismo (FAAP-SP). Tenho o Cinema e a comunicação como grandes (únicas?) paixões. Marxista e pessimista. Saudosista e louco.
Colunista do Cinema de Buteco e membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.