Crítica: Trumbro - Lista Negra, de Jay Roach
Críticas de filmes Drama

Filme: Trumbo – Lista Negra (2015)

Trumbo-review-838x471 Filme: Trumbo - Lista Negra (2015)

Dalton Trumbo é, até hoje, um dos maiores roteiristas que Hollywood já viu trabalhar. Se você checar seus créditos no IMDb, porém, notará que, depois de sua consagração com A Princesa e o Plebeu (que venceu o Oscar, atribuído a um pseudônimo), ele passou a década de 50 inteira escrevendo westerns e melodramas de baixo orçamento, trabalhando na obscuridade enquanto deveria estar recebendo os louros pelo reconhecimento do seu trabalho. O motivo: Trumbo foi uma das centenas de vítimas da caça aos comunistas da época do macarthismo, que destruiu a carreira de diversos profissionais da indústria cinematográfica cuja ideologia se aproximasse demais do lado esquerdo do espectro político norte-americano – uma história que soaria absurda se não fosse verídica e que revela o contrassenso histórico de um país que lutava a Guerra Fria sob a bandeira da defesa da liberdade.

É justamente a curiosidade histórica despertada por sua trama que atrai interesse ao roteiro de Trumbo – Lista Negra, escrito por John McNamara a partir do livro de Bruce Cook – e o cinéfilo ficará particularmente entretido com as diversas situações apresentadas durante a projeção e que, envolvendo nomes do alto escalão da era clássica de Hollywood, como John Wayne, Louis B. Mayer, Otto Preminger e Kirk Douglas, reencenam momentos históricos da produção de diversos clássicos da época. Nesse contexto, o longa narra a prisão de Trumbo (Cranston), o impacto causado por sua perseguição na vida de sua esposa Cleo (Lane) e filhos Nikki (Fanning), Chris (Liptak) e Mitzi (Preston) e, claro, a batalha promovida por Douglas (O’Gorman) e Preminger (Berkel) para que o roteirista recebesse os devidos créditos em Spartacus e Exodus, ambos lançados em 1960.
Se Trumbo fosse lançado quinze anos atrás, o conteúdo político de seu roteiro seria visto como uma lembrança embaçada de um tempo remoto em que defender a ideologia x ou y era o suficiente para que um cidadão comum e pagante de seus impostos fosse visto como inimigo público. No Brasil de 2016, porém, ver um filme em que o adjetivo “comunista” é usado com hostilidade raivosa por uma população hipnotizada pela propaganda política dos detentores do poder econômico nada mais é que refletir acerca de nossa própria realidade, em que qualquer convite a uma discussão inteligente e adulta sobre qualquer tema é imediatamente interrompida por gritos de “petralha!”, “esquerdopata!”, “Vai pra Cuba!” e “esquerdista caviar!” e em que absolutamente tudo o que se diz ou faz, na internet ou na “vida real”, pode (e vai) ser cooptado como veículo para que o ódio da direita seja descarregado.
Capaz de expor a hipocrisia habitual dos que defendem o uso indiscriminado de armas de fogo enquanto seus filhos andam de carro blindado e suportam guerras ao redor do mundo diretamente de suas coberturas localizadas em países/cidades pacíficos, o filme é revelador, por exemplo, ao apresentar John Wayne (Elliott) como um canalha tão ou mais preconceituoso que seus personagens nos filmes de John Ford, chegando ao ponto de advogar o envolvimento dos EUA em diversos conflitos armados no exterior para um grupo de homens que, ao contrário somente dele, já estiveram em combate e conheceram na pele o horror da guerra. Infelizmente, momentos como esse são apenas pontuais em um roteiro que não só falha em evitar o tom episódico, como recorre a recursos narrativos pobres e sem imaginação que enfraquecem o projeto.
Sucumbindo ao mal de várias cinebiografias ao jamais permitir que compreendamos quanto tempo se passou entre uma sequência e outra (um problema não só do roteiro, mas também da montagem de Alan Baumgarten), Trumboainda encontra imensa dificuldade de estabelecer seu conflito central a partir do momento em que seu protagonista passa a trabalhar como “médico” de roteiros e a escrever ficções científicas B para a pequena produtora chefiada por Frank King (Goodman, praticamente repetindo seu papel em Argo e Inside Llewyn Davis). Como se não bastasse, McNamara se mostra desesperado para conferir uma relevância ainda maior ao projeto, inserindo subtramas que, além de não fazerem parte do filme, ainda não ganham o tempo necessário para ser desenvolvidas (e a ótima Elle Fanning é desperdiçada nesse sentido).

Desinteressante do ponto de vista visual, o longa, dirigido por Jay Roach (de filmes das franquias Austin Powers eEntrando numa Fria) e fotografado por Jim Denault, tem a abordagem estética de uma produção para a TV dos anos 90. Aqui e ali, até vemos um momento mais inspirado, como nas cenas em que os atores do filme contracenam com imagens de arquivo (um recurso que, apesar de não representar nenhuma novidade, é utilizado de maneira orgânica) e especialmente no plano em que o preto e branco é substituído pelas cores e a razão de aspecto se expande sem a necessidade de um corte (e que executa uma elipse de forma simples, porém eficaz); de modo geral, porém, o filme conta sua história através dos diálogos e atores, mas não de sua direção e fotografia.

Beneficiado por uma atuação cheia de carisma de Bryan Cranston, que interpreta Dalton Trumbo como uma espécie de Gore Vidal viciado em nicotina, que usa sua superioridade intelectual com um orgulho que só não lhe transforma em um escroque arrogante graças a seu senso de humor afiado, Trumbo ainda traz Helen Mirren, uma atriz que sempre confere sofisticação até mesmo a suas personagens mais mesquinhas, como a colunista de fofoca Hedda Hopper, mantendo o espectador envolvido e interessado em seus personagens durante toda a projeção – um interesse que não demora a ser desfeito quando a projeção chega ao fim e paramos por dois minutos para pensar no filme divertido e politicamente relevante, mas também frouxo e preguiçoso a que acabamos de assistir.

João Marcos Flores

Crítico de Cinema associado à OFCS (Online Film Critics Society, a maior associação de críticos online do mundo, sediada nos EUA) e editor do blog Cineviews.