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Crítica: Fome

É INTERESSANTE PENSAR NA TRAJETÓRIA DE STEVE McQUEEN. Quando videoartista seu interesse estava de alguma forma voltado para as questões raciais e de identidade, e em certo sentido na impossibilidade de uma identidade que se caracterize ou que tenha sobre si um conceito pensado que sobressaia sobre outros. A imagem que fazemos de nós mesmos perante o diferente. Eram vídeos em preto e branco em sua maioria, realizados com um rigor técnico cujo foco era o estático. Uma economia de movimentos caracterizava o olhar de McQueen no mundo do audiovisual.

Em sua estreia num longa metragem (que ganhou o prêmio de estréia em longas em Cannes), sua linguagem se adequa às necessidades que o cinema demanda, sem com isto deixar de lado suas motivações técnicas e narrativas. Fome, este estranho filme de 2008, fala de um episódio importante na história da Irlanda: a greve de fome dos prisioneiros do IRA nos anos 80 que foram julgados por suas manifestações pela separação da Irlanda do Norte do Reino Unido. Aqui se encontra terreno fértil para McQueen e suas questões de identidade já que a luta por um estado laico e com mais direitos civis acabou por enquadrar o braço político do movimento como terrorismo. Houve prisão e julgamentos sem muito critério: os presos queriam o Special Category Status, que lhes permitiria não usar uniformes ou fazer trabalhos forçados, receber visitas extras e ganhar porções maiores de comida, já que não se consideravam presos políticos (e ao que tudo indica realmente não eram). Ali aparecia um mártir do movimento, Bobby Sands, que veio a falecer dois meses depois de uma greve de fome. É esta história que acompanhamos aqui.

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Fome é em alguma medida um filme feito para o cérebro, mas que passa pelo estômago e pelo coração. Há sempre um dado de violência mesmo que ela não esteja de fato acontecendo na narrativa de McQueen. A forma como os presos são mantidos, ou a violência com que são tratados está o tempo todo impressa em seus corpos, e na destituição de sua humanidade, quando deixam de ser indivíduos para se tornar mais um nome na lista de condenados esperando por uma aguardada liberdade.

O caminho que o cineasta percorre também faz uso de alternativas interessantes quando foca em três momentos da trama no lugar que diferentes pessoas desempenham no desenrolar dos acontecimentos. Os dois lados da história são vistos: algoz e presa, a revolta e a repressão, ambos num estado de medo. Como que esperando por um conflito que está potencializado nas fracassadas tentativas de controlar os protestantes.

As cenas são fortes e diretas. Os diálogos são poucos e econômicos. A ação dos personagens fala por si só. Com exceção da sequência de diálogo que explicita a visão de dois lados do movimento. Um diálogo bem orquestrado e que coloca frente a frente dois pontos de vista: a razão e a emoção. As obrigações políticas e as obrigações morais.

Este também é o filme que marca o começo da parceria de McQueen com o astro de seu vindouro Shame. Michael Fassbender (de Bastardos Inglórios) está no papel de Bobby Sands. Sua entrega ao personagem é notável. As cenas finais, em que os resultados da greve de fome começam a se acentuar no corpo e na alma de Bobby são aflitivas, realistas e duras. Qual é o preço de uma causa? O fim desta história é conhecido. Sua morte será apenas  mais uma dentre as mais de duas mil mortes , em sua maioria civis.

Fome, fala de maneira geral da busca por reconhecimento do  indivíduo dentro de uma coletividade que se pretende legítima, independente. Fala do corpo como arma quando não se tem mais saída (palavras do próprio diretor). Fala de um episódio recente da história da Europa pouco conhecido e sem deixar de ser humano. Recomendo.

 

Título original: Hunger

Direção: Steve McQueen

Produção: Robin Gutch, Laura Hastings-Smith

Roteiro: Enda Walsh, SteveMcQueen

 Elenco: Michael Fassbender, Liam Cunningham, Stuart Graham, Laine Megaw, Brian Milligan, Liam McMaho

Lançamento: 2008

Nota:

 

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