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Frida

De Julie Taymour. Com Salma Hayek, Alfred Molina, Geofrey Rush, Diego Luna, Antonio Banderas, Ashley Judd, Saffron Burrows.

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Quando Frida perde seu filho, e se dá conta disso, mesmo em meio ao um profundo desespero ela pede para ver o feto abortado. Deitada em uma cama de hospital, observando seu filho morto prematuramente, ela pinta. Imortaliza na tela aquilo que para ela é imortal, universal: a dor. Se esta sequência de fato aconteceu, eu não me arriscaria a dizer, mas é uma das cenas mais belas de Frida, biografia dirigida por Julie Taymour (do também sensacional Across the Universe) em 1999.

E esta é dúvida que temos em vários momentos do filme, que se preocupa não em apenas reconstituir os momentos desta importante artista mexicana do começo do século XX, mas também o processo que a levava a criar, a traduzir sua vida em suas obras, e aquilo que se passava em seu interior. É preocupação da diretora sempre remeter a vida à obra, nos fazer pensar no que poderia levar à criações são simbólicas e ao mesmo tempo tão surrealistas, embora o ponto de partida nunca tenha sido o mundo onírico, mas sim a realidade de Frida.



Desde muito cedo acostumada com a dor física, já que na sua juventude sofre um acidente que lhe deixa seqüelas para toda a vida, Frida nunca se deixou abater. A vontade de seguir falava mais alto. Fica sempre a sensação de que a dor passa, por mais forte que seja. Mas os momentos felizes vividos ficam para sempre.


É estranho dizer isso, mas ao fim do filme temos a sensação de que muito mais do que dados da vida de Frida, conhecemos a sua forma de ver o mundo, como se ela nos fosse íntima. Sem lições de moral, sem apelos dramáticos. Mas é impossível deixar de admirar esta mulher.


Além de sua obra e de sua vida como artista, como não poderia deixar de ser no caso de Frida, boa parte do filme nos conta sobre seu envolvimento com o pintor muralista Diego Rivera. Seu mestre e confesso admirador (tendo várias vezes admitido que a obra de sua mulher em muito superava a dele), teve participação fundamental para o amadurecimento de Frida como artista e mulher. A relação dos dois e tudo o que a envolvia inspirava Frida a criar, para o bem ou para o mal. Como na cena em que rompe de maneira que parece ser definitiva com Diego. Corta seus cabelos, chora, se decepciona… E se vê pintada num quadro. Que logo em seguida percebemos se tratar do surgimento de mais uma obra da artista.


Se vida e obra se misturam quando se trata de Frida Kahlo, Julie Taymour mantém esta lógica quando filma. Remeter, referenciar e até mesmo fundir obra e a história contada é uma alternativa muito acertada. Suas brincadeiras visuais que envolvem desde animação, até técnicas de fusão de imagens resultam em belos planos, coloridos, vivos. É como se víssemos os trabalhos de Frida sendo feitos, no inconsciente da artista, misturando-se com suas experiências vividas.


Fazendo um paralelo com Across the Universe, percebe-se uma semelhança na forma de tratar as histórias. Nos dois casos havia um referencial a partir do qual a direção deveria agir: os trabalhos de Frida e as músicas dos Beatles (lembrando que no primeiro caso há também um livro adaptado). Nos dois casos os referenciais é que determinam o encadeamento da história: no primeiro as ações vividas remetem a todo o momento às obras da artista, mesmo que de forma apenas implícita; no segundo as músicas propiciam certas possibilidades onde a história de desenvolve. E em ambos os casos a história é amarrada pensando-se neste quase tributo (à Frida e aos Beatles) sem deixar de lado a coerência e a qualidade daquilo que é exibido. Ponto para Julie Taymour, que com apenas dois filmes no currículo mostra competência e deixa vontade de acompanhar sua trajetória.


É claro que uma boa direção apenas não faz um filme. Fotografia e a trilha sonora também merecem menção, já que são eficientes sem nunca apelar para clichês (que afinal de contas quando se trata de um filme sobre artista plástica mexicana podem ser inúmeros).


É um belo filme, pra quem conhece ou pra quem nunca ouviu falar desta artista. Recomendo.



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