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Hanna

HANNA É UM DAQUELES FILMES QUE DIVERTEM. Você abandona qualquer pretensão de assistir uma história coerente e mergulha de cabeça no mundo fantasioso criado por Joe Wright, diretor de Desejo e Reparação, longa que também é estrelado pela talentosa Saoirse Ronan. Mas isso não significa que a produção deixe a desejar, já que mesmo narrando uma história fraca e que não convence o público, ela é divertida o suficiente para que o espectador aproveite cada sequência. Por mais bitolada que seja.

Logo no começo do longa-metragem é possível perceber referências ao excelente Kick-ass – Quebrando Tudo, de Matthew Vaughn. Se Chloe Grace Moretz sendo espancada causou um choque inicial durante a adaptação da graphic novel, uma sequência parecida passa batida e sem chocar. O mais interessante é a cena onde um alce é atingido por Hanna (Ronan) e começa a agonizar até ser executado pela garota.

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Eric Bana surge como o pai e mestre da adolescente. Eles vivem juntos numa área remota e longe da civilização. A paz acaba quando Hanna decide que está pronta para conhecer o mundo real. O problema disso é que se ela terá que evitar ser encontrada pela perigosa Marissa (Cate Blanchett), uma perigosa agente da Inteligência Secreta. Durante o caminho para o mundo real, Hanna faz amizade com uma família suburbana, tem o seu primeiro encontro romântico (que como acontece na maioria dos casos normais, é desastroso) e é perseguida por um trio de vilões babacas e sem expressão.

O grande problema de Hanna, além dessa trama pouco convincente (ou atraente, entenda como quiser), é a ausência de carisma dos personagens. Não fosse pela performance de Blanchett, o elenco inteiro deixaria a peteca cair e transformar a produção em uma semi-tediosa aventura para garotas se divertirem. Algo como imaginar como seria o encontro de Lara Croft com Mogli e os genes modificados da personagem de Milla Jovovich na franquia Resident Evil. Os personagens não são bem trabalhados, possuem zero de carisma e até mesmo Blanchett escorrega em alguns momentos, mas a vilã possui uma frieza impossível de ser ignorada e acabamos torcendo por ela o mesmo tanto que torcemos para que ela seja assassinada pela heroína.

Wright acerta nas sequências de ação, pelo menos. Após “abraçar” uma ingênua agente, Hanna tenta escapar das garras da organização secreta da qual Marissa faz parte. Enquanto distribui socos e pontapés em seguranças, a loirinha que nunca viu um pente na vida se esgueira pelos corredores e subsolos até conseguir escapar. O longa ainda tem outros momentos de tensão, alguns meio clichês (a famosa cena em que alguém se esconde debaixo da cama), mas a maioria é satisfatória se tratando de uma produção sem muita ambição de ser levada a sério.

Aliás, já que comentei sobre a falta de propósito no roteiro de Seth Lochhead, qual será a mensagem final de Hanna? Será que é um filme para mostrar que o exílio nunca será melhor do que a vida em sociedade? Ou será que tudo não passa de uma boa e velha forma tarantinesca de contar uma história de vingança? Se for esse o caso, Wright se esqueceu de incluir um pouquinho de sangue na trama. O contraste do vermelho ficaria lindo na cena em que Hanna executa o azarado Bambi, que deitou na neve enquanto aguardava pelo momento de bater biela para sempre.

Hanna escapa dos exageros do estereotipo de personagens modificados geneticamente, o que oferece uma garota vulnerável e que pode ser capturada, ainda que seja letal e extremamente escorregadia. Ainda que o encerramento use a estrutura aristotélica do discurso, o recurso acaba deixando a desejar e é usado em vão. Mas se tratando de um filme de ação que não tenha o Jason Statham no elenco, provavelmente não deixará a desejar.

Título original: Hanna
Direção: Joe Wright
Roteiro: Seth Lochhead
Elenco: Saoirse Ronan, Eric Bana, Cate Blanchett
Nota:

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