Império do Sol | Cinema de Buteco
Críticas de filmes Drama Guerra

Império do Sol

por Leonardo Lopes

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UM DOS GRANDES TALENTOS DE STEVEN SPIELBERG É A SENSIBILIDADE com que sabe transmitir a visão infantil em seus dramas, como comprovou em diversas fases de sua carreira, mas especialmente em Império do Sol (Empire of the Sun).

Durante a década de 1940, a região de Xangai, na China, é palco para diversos conflitos militares em decorrência da invasão feita pelo Japão – o contexto é bem mais complexo, mas não irei aprofundar-me na questão histórica sem o conhecimento necessário para fazê-lo. Nesta ocasião, vivem no local diversas famílias poderosas vindas do Ocidente, especialmente da Inglaterra. Entre elas está a família do pequeno James Graham (Christian Bale, em sua estreia nas telonas), que graças a um evento de ataque militar próximo de sua residência, são obrigados a deixar a casa às pressas rumo a um lugar mais seguro. Durante a fuga, o garoto se perde dos pais, sendo obrigado a sobreviver sozinho e da forma que puder, em condições tão adversas – que o levam até um rígido campo de concentração, onde se passa grande parte da trama.

No início, o garoto, embora viva em meio a um cenário de perigos e conflitos constantes, tem a visão inocente de uma criança, que enxerga a Guerra acima de tudo como um modo de aumentar sua paixão pela aviação, inspirando-se nos oficiais que pilotam aviões e não nutrindo qualquer tipo de má relação com a população asiática, como a maioria dos burgueses com quem convive faz. O drama é visto sob a visão de uma criança, e assim Spielberg filma a Guerra, aqui. E não dedica-se apenas a isto, mas a retratar a jornada de amadurecimento desta criança durante esses fatos. Quando se perde dos pais e passa a lutar por sua sobrevivência sozinho, James conhece toda a crueldade (que até então era desconhecida) que existe neste contexto e se transforma com isto. Ao final da experiência, por mais que ainda seja uma criança, ele perde grande parte da inocência inicial, passando a compreender que cada um deverá lutar por seus próprios interesses quando há poucos recursos para sobreviver – repare como na primeira oportunidade em que pode ter os sapatos de alguém que já morreu, ele não aceita; depois, quando volta a tê-la, aceita sem hesitar -, ainda que não deixe de se preocupar com aqueles com quem convive no campo de concentração.

Na retratação desta jornada que mistura amadurecimento com a vivência de certas experiências épicas, Império do Sol não tem a mesma eficácia enquanto debate e retratação histórica. É de conhecimento geral – especialmente neste ano, quando o diretor lançou Lincoln – que Steven Spielberg exalta seus sentimentos mais patriotas sempre que pode através de sua Arte, o que não muda aqui, onde vitimiza os ocidentais – embora estes não sejam vítimas completas da história, pois sua vida no local não era assim tão sofrida, onde exploravam os povos asiáticos e tinham condições econômicas exorbitantes próximo destes -, e vangloria a chegada dos soldados americanos ao final das experiências vividas pelo protagonista como um momento heroico.

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Questões que poderão até não gerar um incômodo tão grande pelo roteiro abrir-se a alguns eventos que claramente fogem da realidade e podem até representar uma certa poesia, como se a imaginação da criança continuasse funcionando e produzindo sonhos mesmo em meio a tanto sofrimento – a fotografia costuma clarear-se bastantes nestes momentos. No meu caso, o incômodo foi gerado.

Se não foge de seu campo de conforto no patriotismo, é uma grata surpresa que, neste trabalho, o cineasta fuja da dramatização exagerada e maniqueísta como utiliza por algumas vezes em sua carreira e construa a dramatização de forma mais simples, crua e sem as manipulações habituais através dos elementos narrativos para construir o drama – note como a trilha sonora de John Williams está bem mais contida do que o habitual. O que é um alívio para quem está cansado do melodrama de grande parte das produções americanas que dedicam-se à retratação da Guerra, conseguindo provar a possibilidade de atingir o emocional do espectador mesmo sem estes recursos, como aqui acontece. Apenas pela grandiosidade da jornada apresentada, o longa consegue construir uma série de belos momentos em sua abordagem, como aquele em especial no qual James realiza uma missão praticamente militar e ganha a ajuda de um oficial japonês para sobreviver; há outra cena que gosto bastante, na qual a fotografia de Allen Daviau clareia apenas a face do garoto em meio a um local no qual todas as pessoas estão na escuridão, representando a esperança que reside apenas naquela criança. O protagonista tem certos trejeitos que inicialmente incomodam – como sua exagerada pretensão -, mas depois consegue ganhar a simpatia do espectador como o pequeno sobrevivente, comprovando o talento de Christian Bale desde a infância. Quem também ganha destaque é John Malkovich, construindo seu Basie com o cinismo necessário, mas traços de bondade que o levam a tornar-se o mais próximo de uma figura paterna para o protagonista, quando este perde seus pais.

Há alguns pequenos problemas de ritmo, também, mas numa visão geral, Império do Sol consegue funcionar bem como um belo drama na construção de sua grandiosa jornada de amadurecimento, com a Guerra servindo apenas como pano de fundo.

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Nota:[tresemeia]

Leonardo Lopes

Estudante de Jornalismo, cinéfilo, marxista e um aspirante à admiração da Sociologia. Ou nada disso.
Colunista do Cinema de Buteco e membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.