Magia Antiga ou “A Invenção de Hugo Cabret”

Texto de autoria de Ana Clara Matta, do site Rock n`Beats.

Tudo começa com o tiquetaquear de um relógio. O tempo, implacável, pode até ser um tema secundário em A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese, mas a analogia que move o filme está inscrita nas engrenagens de um relógio, analogia que não se relaciona apenas com o tal tempo, sua passagem e a nostalgia que esta causa, mas também se relaciona com o cinema. Qual é a relação dos relógios, que ganham tanto tempo na frente das câmeras em Hugo Cabret que praticamente se tornam protagonistas, com o cinema?

O relojoeiro é um artista da precisão. Um virtuoso, como Martin Scorsese e seus planos-sequências de tirar o fôlego, cortes precisos e utilizações sutis de novas tecnologias. O relojoeiro sabe também o valor de cada engrenagem em seu mecanismo final. Assim, Hugo funciona como uma máquina bem calibrada, e seu funcionamento depende de cada contribuição dos brilhantes diretores de fotografia e arte, da montadora, de figurinistas e atores.

Mas se o relojoeiro pode ser comparado com o cineasta, um paralelo pode ser traçado entre o cinema e o relógio. Uma invenção humana feita para capturar algo que é natural. Enquanto o relógio transforma o movimento natural do sol e a variação que sua luz provoca nas sombras no movimento mecânico de um ponteiro, o cinema transforma a vida real em arte e estória através da lente de uma câmera. Nós, cinéfilos, estamos todos como Harold Lloyd ou Hugo, nos segurando em um de seus ponteiros com força, ansiosos.

A Invenção de Hugo Cabret é uma obra de arte em todos sentidos. Encanta visualmente, é claro, mas ao mesmo tempo te envolve com sua história até um ponto em que os detalhes técnicos, impecáveis, se tornam apenas pano de fundo para as emoções.

É curioso perceber como que algumas das maiores declarações de amor ao cinema foram feitas em filmes que escolhem o olhar da criança como câmera e filtro. Isso acontece porque a analogia do relógio não é suficiente para definir o cinema. O cinema não é simples técnica, mecânica, é mágica, e Scorsese sabe disso. O Méliès de Ben Kingsley treina o jovem mecânico/cineasta Hugo, uma metonímia para qualquer jovem cinéfilo que se encanta com a sétima arte, qualquer Salvatore como o de Cinema Paradiso ou Joe de Super 8, no ofício de mágico. Afinal não basta apenas comandar as engrenagens, a chave mágica da inspiração, o encantamento das histórias e dos sonhos do indivíduo, são essenciais para o nascimento do cinema.

A mensagem final de Hugo está inscrita em uma de suas falas, uma fala pequena, que pode se perder no meio de toda a obra, mas merece sua atenção. Um agradecimento pela pérola que é A Invenção de Hugo Cabret, um agradecimento pela carreira brilhante de Scorsese, que foi capaz de trocar a agressividade seca (e extraordinariamente captada) de seus primeiros filmes e abraçar o universo infantil e nostálgico, e um agradecimento aos pioneiros, aos irmãos Lumiére, a George Méliès: “Thank you for the movie today. It was a gift“.

Título original: Hugo
Direção: Martin Scorsese
Produção: Graham King
Timothy Headington
Martin Scorsese
Johnny Depp
Roteiro: John Logan
Elenco: Asa Butterfield
Chloë Grace Moretz
Christopher Lee
Ben Kingsley
Jude Law
Sacha Baron Cohen
Lançamento: 2011
Nota:    

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