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Inside Llewyn Davis – Balada de um Homem Comum

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NÃO É A PRIMEIRA VEZ QUE A MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA, que acontece há 37 anos em São Paulo, me apresenta filmes que foram parar na minha lista de favoritos. Este ano, tive o privilégio de assistir a cerimônia de abertura da Mostra diretamente da plateia. Tenho que confessar que o principal motivo de eu estar lá na noite do dia 17 de outubro foi a exibição do novo filme dos Irmãos Coen. Mais uma obra que chegou para consagrar a altíssima qualidade da dupla, que já nos concebeu grandes filmes como Barton Fink, O Grande Lebowski e Fargo.

Inside Llewyn Davis realmente é digno de ser exibido na abertura do evento de Cinema mais importante de São Paulo. No melhor estilo “Uma Comédia de Erros” (o famoso slogan de Fargo), o filme traz a história de um cantor que acaba de se separar da sua dupla, e desde então, parece tudo dar errado. O cenário traz a década de 1960 para a tela, quando o violão era o instrumento favorito dos jovens músicos, e as canções retratavam viagens, estradas, saudade e a tentativa do desapego. A música era o Folk, murmurada por jovens que colocavam todo o seu coração e retratavam seus sentimentos da forma mais pura.

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O longa-metragem começa com o querido personagem Llewyn (Oscar Isaac) cantando em um bar, para uma plateia não muito animada. Logo em seguida, um cara misterioso lhe procura e o premia com uma bela surra. Ele acorda na casa de um amigo já senhor, que parece ser o único que se preocupa com o bem estar do jovem cantor. Desde então, o gato deste amigo entra para sua vida e se torna uma responsabilidade de Llewyn. Desprezado por alguns, ajudado por outros, o nosso amigo não tem casa fixa, está sem trabalho algum como cantor e vive na estrada pedindo carona.

Oscar-Isaac-and-Justin-Timberlake-in-Inside-Llewyn-DavisUma curiosidade: o lugar que Llewyn toca é o Greenwich Village, em Nova York, que não é nada mais que o barzinho que acompanhou o nascimento da maior estrela da música folk, o grande Bob Dylan. O filme é rodeado de referências à trajetória da música daquele momento. Outro detalhe importante é que a obra retrata a história de um músico esquecido no tempo, Dave Van Ronk, que gravou apenas um disco em 1963, chamado Inside Dave Van Ronk; a fonte de inspiração do nome do filme.

Llewyn é um personagem super humano, sabe? O cara só queria viver da sua música, na companhia do violão e sem precisar do seu antigo parceiro. Ele se envolveu em diversas enrascadas em todos os lugares. Gastou o dinheiro que não tinha, descobriu coisas absurdas sobre si, era elogiado, mas sempre tinha algum fator externo que o impedia de ir pra frente. Llewyn tinha um bom coração, embora se exaltasse algumas vezes – sempre com pessoas inocentes. Ele estava cansado daquilo tudo e precisava tomar um rumo para seguir. Voltando ao início do parágrafo, ele pode ser considerado um super humano por ser o retrato fiel de reles mortais como nós. Quem nunca se viu em uma fase de cansaço mental, em que nada dá certo, quando na verdade, só estávamos em busca de um pouco de paz? Sentimos vontade de reciclar tudo; família, trabalho, estudo, amigos… É este o retrato de Llewyn, que poderia muito bem ser o meu. Há milhões e milhões de “Llewyns” por ai, que pensam e repensam sobre a vida todos os dias e que imploram por apenas um dia de paz.

Llewyn é rodeado de pessoas caricatas, típicos personagens emblemáticos criados por Joel e Ethan Coen. Embora os dois sejam bastante diferentes, Llewyn tem muita coisa em comum com The Dude – ou Jeff Lebowski (Jeff Bridges), como odeia ser chamado. A começar pelo cara misterioso que aparece para dar uma lição ao personagem principal. Ambos só querem um pouco de sossego, gostam de música e vivem sem luxo algum. Só que Llewyn ainda não tem tanta bala na agulha para tomar o trono de The Dude. Sinto muito, mas somente o personagem de Jeff Bridges mereceria uma religião própria (o Dudaísmo), uma festa tradicional que ocorre todos os anos para celebrar o modo de vida de The Dude e por aí vai.

Assim como os ciclos da nossa vida, tudo não passa de uma fase, seja curta ou longa, e os Irmãos Coen sabem retratar isso como ninguém. Por isso gosto de afirmar o quanto a essência humana está presente nas obras desta dupla incrível. Imagino-me abraçando Llewyn e dizendo que vai dar tudo certo.

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A fotografia impecável soube retratar o inverno carregado de neve de maneira perfeita. A trilha sonora é um caso de amor á parte, repleta de músicas lindas que tocam o coração de forma divina. Se você for chorão (ou chorona) igual a mim, prepare os lenços. Não consigo achar a palavra certa para descrever o roteiro. Perfeito seria pouco. O filme conta com um elenco mais que incrível: John Goodman, Carey Mulligan, Garret Hedlund e o queridinho Justin Timberlake. Por ser claramente uma homenagem ao Folk dos anos 1960, nada mais justo que todos os personagens cantores tenham talento para interpretar pessoas e músicas.

Oscar Isaac, que interpreta Llewyn, ganhou a oportunidade para mostrar ao público que não é apenas um rostinho bonito. Além de atuar de forma incrível, é ele quem solta a voz nas músicas que interpreta, confirmando que também tem muito talento para a música. Até a beleza do cara é autoral! Nunca vou me esquecerei da primeira vez que encontrei aqueles olhos na sala de cinema, foi em W/E, o último filme que a Madonna dirigiu.

Depois desta crítica totalmente parcial, nada mais justo do que CINCO CAIPIRINHAS bem servidas ao som de músicas que mexem com a alma e o coração. Veja o trailer:

Título original: Inside Llewyn Davis

Direção: Joel e Ethan Coen
Produção: Joel e Ethan Coen, Scott Rudin
Roteiro: Joel e Ethan Coen
Elenco: Oscar Isaac, John Goodman, Carey Mulligan, Garret Hedlund, Justin Timberlake
Lançamento: 2013
Nota:[cinco]

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