Inverno da Alma | Cinema de Buteco
Críticas de filmes

Inverno da Alma


Nú, crú, seco, cruel, verdadeiro e sem firulas, Inverno da Alma é altamente transparente em seu objetivo e narrativa proposta. É filme pra quem curte roteiro. Sem efeitos especiais, sem maquiagem, sem uma edição muito boa, mas com uma fotografia extremamente realística e de causar inveja em muito diretor figurão. Isso sem contar as grandes performances dos atores que dão um espetáculo na postura, na composição rural dos personagens, na amargura que existe dentro de todos eles, e acredite sem em momento algum cair no piegas “sou roceiro”.
Inverno da Alma conta a história de Ree, adolescente do interior da américa, cujo o pai é foragido da polícia e está desaparecido, a mãe é doente mental, sobrando pra ela a tarefa de cuidar dos dois irmãos mais novos. Como se não bastasse todo o drama cotidiano a menina ainda recebe a notícia, através de um caçador de recompensas, de que seu pai deu a sua casa como garantia para pagar sua fiança e não apareceu no dia do julgamento, e que se ela não encontra-lo ficará sem lugar para morar com toda sua família.
O drama já seria por sí só extremamente intenso, mas é a sua ambientação que o faz se tornar brilhante. O ambiente castigado em onde vivem; a massacrante vida cotidiana, com poucos lazeres; o extremo frio que enfrentam; a escassez de alimento; a falta de amigos. Todos esses fatores geram pessoas amarguradas, rudes e grossas no comportamento, sem nenhuma delicadeza e nenhum carinho com o próximo. É muito marcante como Debra Granik deixa isso bem claro no roteiro, e como os atores conseguem absorver com maestria esse comportamento. Não existem sorrisos, não existem abraços, mas sim muitas expressões cansadas, muito rancor e muita decepção no olhar deles.
É em meio a todo esse ambiente hostil que Ree sai para procurar o seu pai, precisando da ajuda de muita gente para consegui-lo, mas tudo o que consegue são muitas portas na cara. Muito desgastada e cansada a adolescente não desiste e acaba em alguma hora vencendo as pessoas pelo cansaço, é claro que bem depois de tomar muita porrada na cara (literalmente). A primeira que depois da insistência se dispõe a ajuda-la é sua amiga Gail, que rouba a caminhonete de seu marido para emprestar pra Ree, e depois seu rabugento tio Teardrop (incrível atuação de John Hawkes) que acaba meio que comprando sua briga. Destaque também para Dale Dickey na pele da vilã Merab. Ps.: Nunca ví uma surra tão bem dada.
Aos poucos Ree percebe que seu pai se meteu em uma grande trama de crimes, tráfico, com gente poderosa da região, gerando nas pessoas o sentimento de “ninguém vê, ninguém fala”, que a aconselham a voltar para casa e esperar pela sentença. Ree é determinada e Nariz em pé, acho que é até por isso que as pessoas tem certa hostilidade com ela, vem a receber na porta, com quatro pedras na mão e sem nenhum tipo de hospitalidade. Mas aos poucos devido sua persistência ela vai derrubando as barreiras, fazendo aliados e descobrindo que nem tudo era como ela esperava e que a história de seu pai ainda pode tomar rumos surpreendentes.
Tem algumas coisas muito fascinantes, trabalhadas incrivelmente pela Debra que realmente marcaram e eu tiro meu chapéu, como os costumes da cultura local que são totalmente preservados: tipo homem não encosta em mulher da outra família, homem bate em homem e mulher em mulher, homem não mantem conversas com outras mulheres, suas esposas intermediam o contato, o digníssimo folk que parece ser o único momento de descanso e encanto desse povo. Isso tudo aliado a puta atuação de Jennifer Lawrence deixam uma marca no filme. Tem gente por aí subestimando a atriz dizendo que ela não merece o burburinho que está causando, pois eu digo que merece sim. Desde o seu lindo trabalho com o Arriaga em “Burning Plain” que eu venho acompanhando seu trabalho e ela se mostra sempre espetacular: absorvendo a essência do personagem e esbanjando atitude. Depois da Natalie ela é a quem mais merece aquele oscar.
O filme é isso, realista ao extremo e muito bem ambientado. Não esperem ver um drama feminino, o personagem se indagando, não. Porque é um filme de atitude. Mas também não esperem um soco no estômago que ele também não virá. Nada de dramalhão, o filme é contido, certeiro e na medida. Um espetacular desencadear de acontecimentos, regados a muita aspereza e amargura. Inverno da Alma merece sim 4 caipirinhas.

Direção: Debra Granik
Roteiro: Debra Granik
e Anne Rosellini
Elenco: Jennifer Lawrence
Shelley Waggener
Lauren Sweetser
e John Hawkes
Ano: 2010
Duração: 1h e 40 min

Jairo Borges

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