Last Waltz – O Último Concerto de Rock

por Marcelo Seabra, editor do blog O Pipoqueiro

last waltz 2

EM 1976, depois de 16 anos de estrada, The Band se desfez. E, para fazer uma celebração histórica, eles decidiram fazer um concerto enorme, com vários convidados que participaram de alguma forma da carreira deles. O antigo gerente de turnês, Jonathan Taplin, já estava no mundo do Cinema e achou que ninguém seria melhor para registrar aquele grande encontro que Martin Scorsese. O cineasta foi apresentado ao guitarrista Robbie Robertson e os dois logo ficaram amigos, chegando a morar juntos. Assim, Taplin e Robertson produziram e Scorsese dirigiu O Último Concerto de Rock (The Last Waltz, 1978), documentário que alterna depoimentos sobre a história da banda e as músicas do show.

Pouco depois do fim das filmagens de New York, New York, que seria lançado no ano seguinte, Scorsese engatou esse novo projeto, seu sétimo longa metragem, o primeiro documentário sobre música de muitos que ele viria a fazer. Talvez por ser o primeiro, ele faz algumas escolhas questionáveis, dispensando a isenção que usaria nos seguintes. Ele não se satisfaz apenas em fazer as perguntas para os músicos responderem, ele próprio é um personagem que interage com os demais nos momentos de bastidores. E, de uma banda que tinha cinco integrantes, acabam aparecendo somente três, deixando dois relegados a uma ponta. Richard Manuel e Garth Hudson mal dão as caras e a importância deles é diminuída, deixando os holofotes para Rick Danko, Levon Helm e, principalmente e não por acidente, Robertson.

Depois de um início pobre no Canadá, quando até roubavam comida e cigarros em supermercados, os cinco jovens foram tentar a sorte nos Estados Unidos e acabaram como banda de apoio do cantor Ronnie Hawkins. Por isso, se intitularam The Hawks. Tempo depois, por sempre acompanharem músicos famosos, como Bob Dylan, eram chamados de “a banda”, e toparam assumir esse nome. Depois desses 16 anos de estrada, conhecendo e trabalhando com muita gente, eles resolveram pendurar as chuteiras. “A estrada é um estilo de vida impossível”, diz Robertson.

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Anos depois, em sua autobiografia, o baterista e vocalista Levon Helm tornou pública sua frustração com O Último Concerto de Rock, que transforma Robertson no líder deles. O guitarrista é mostrado cantando em vários momentos, mas provavelmente o microfone estava desligado, prática comum em shows. E o lucro que o filme gerou para a Warner no lançamento nos cinemas e nas diversas versões para homevideo nunca chegou aos músicos, que até passaram dificuldades financeiras. O filme foi motivo para ressentimento entre eles, mas o show filmado foi claramente uma grande diversão para todos os envolvidos.

Apesar dessas intrigas, e de estar no auge do uso de drogas, Scorsese faz algumas imagens que seriam para sempre referência para documentários musicais. O filme já valeria pela seleção musical e pela competência de todos os envolvidos. Os ângulos e enquadramentos eternizaram muitos momentos fantásticos, em interpretações de canções clássicas da Band e de seus convidados. Gente como Dylan, Hawkins, Eric Clapton, Neil Young, Neil Diamond, Muddy Waters, Joni Mitchell, Van Morrison, Stephen Stills, Ringo Starr e Ronnie Wood marcou presença, como atração principal ao lado da banda ou como músicos de apoio. A recepção pela crítica foi ótima, e permanece assim. O lançamento mundial aconteceu em Cannes, em 1978, e a obra se tornou um marco para gerações futuras. Scorsese, mesmo com poucos anos de carreira e cheio de cocaína na cabeça, já era um diretor de mão cheia.

poster last waltz

Nota:[cinco]

Marcelo Seabra

Além de colaborar no Buteco, Marcelo é editor do blog O Pipoqueiro (blogs.uai.com.br/opipoqueiro), comentarista no podcast do Cinema em Cena e onde mais o chamarem. Busca sempre manter alto o volume de filmes e séries vistos e está sempre ouvindo música. Dos anos 60, de preferência.